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06 October 2009

Hellblazer: Shoot

Argumento: Warren Ellis
Desenho: Phil Jimenez e Andy Lanning
Editora: Vertigo


Este comic que nunca viu a luz do dia está disponível para vossa leitura ilegalmente (obviamente) nos links mais abaixo. Escrito nos idos tempos em que o Warren Ellis escrevia o título Hellblazer, diz-se que este comic foi a razão do Ellis ter batido com a porta na Vertigo abandonando o título e, até hoje, sem voltar colaborar regularmente em títulos directamente ligados à editora.

Como já é hábito dos autores da british invasion, o facto de estarem alienados e poderem olhar com outros olhos para a sociedade americana permite-lhes mostrar aquilo que eles não querem ver. A razão do afastamento desta história das bancas foi o facto de ter ocorrido o massacre de Columbine antes da publicação do mesmo. Apesar da história estar pronta, a editora achou por melhor não lançá-la o que levou a sérios protestos do escritor. Resumidamente a Warner e DC acobardaram-se e acharam por bem ignorá-la. Assim, aquele que iria ser a revista Hellblazer #141 não viu a luz do dia até hoje, 10 anos volvidos.

Este embrólio todo não deixa de ser irónico pois, conforme podem ler, qual catarse do massacre, esta história funcionaria mil vezes melhor para abanar consciências (assim como o Columbine do Gus van Sant ou ainda o documenário do Michael Moore) por não ter medo de mostrar a realidade crua e dura em vez da já habitual atitude de enterrar a cabeça na areia e culpar a televisão, jogos de vídeo ou... sim, adivinharam, os "comic books" de todos os males.

O senado americano decide abrir uma investigação às causas dos recentes tiroteios e massacres em escolas entre alunos. A psicóloga responsável pela investigação aproveita para escrever uma tese acerca da patologia de massacres premeditados e a psicologia das vítimas. Obcecada com o caso, ela inclusive adormece todos os dias a ouvir a gravação do suicídio em massa de Jonestown e assiste repetidamente às gravações dos tiroteios. Mas é nesses vídeos que ela repara que existe algo comum a alguns recentes vídeos: um homem inglês de meia idade de gabardine.

Sim, é o nosso conhecido e velho amigo John Constantine que deu um salto ao outro lado do Atlântico a pedido de um amigo para descobrir o que aconteceu ao filho que foi morto num massacre idêntico no Louisiana. Convido-vos a ler e reflectir neste que é um dos melhores contos do personagem que li até hoje (não foram tantos quanto isso hehe).

Este conto pode ser lido aqui ou aqui mas atenção, despachem-se porque mais cedo ou mais tarde a DC irá descobrir estes sites e exigir a eliminação dos ficheiros, ainda para mais que o Warren Ellis no seu site/blog voltou a acordar as hostes para esta história.

03 September 2009

Pax Romana

Argumento, Desenho, Cor:
Jonathan Hickman
Editora: Image Comics


2053 d.C., o Islão é a religião predominante na Europa ocidental.
O Vaticano financiou secretamente durante décadas certas instituições, laboratórios e cientistas para poderem deter e manter secretos certos avanços científicos. O mais recente avanço tecnológico? Viagens no tempo de grandes massas, em completa segurança mas sem hipótese de retorno.
Uma tecnologia potencialmente perigosa e muito apetecível torna-se assim uma arma nas mãos do Vaticano que pretende usá-la para moldar e, nas palavras deles, salvar o futuro da Humanidade, destruindo o passado.

Esta é uma premissa que já vimos e lemos em inúmeras histórias sobre viagens no tempo e possíveis alterações do curso da História com determinados objectivos que acabam bem ou mal. Apesar de batido e de acharem que já se experimentou tudo o que havia para ser lido e visto, a verdade é que muito dificilmente se encontra algo ao nível de Pax Romana.

É ponto assente pelo Papa Pio XIII que jamais se intervirá na vida de Cristo. Como o próprio diz, a ideia não é tornarem-se colaboradores de Cristo ou criar um paraíso artificial na Terra mas sim consolidar o poder da Igreja depois da ressurreição e antes da criação do islamismo.

5000 homens, armas nucleares, 4100 toneladas de ouro e a mais recente tecnologia militar comandada pelos cardeal Beppi Pele e o general Nicholas Chase, a maior mente militar do seu tempo, são enviados para 312 d.C. para ajudarem o imperador Constantino a consolidar o poder. Mas o que seria uma missão de fortificar a sua relação entre o império romano e a igreja aumentando o poder desta no futuro, o que acontece é uma tentativa de provocar uma revolução civilizacional que só aconteceria 1300 anos mais tarde de uma forma extremamente condensada e bem planeada. Uma experiência social que o intitulado Exército Eterno de Roma tenta produzir durante algumas gerações na tentativa de criar a melhor sociedade possível, tudo graças à esperança média de vida destes homens que ronda os 200 anos, fruto do futuro de onde vêem.

Acontece que, por mais bem preparados que estes homens estejam, por mais avançados que sejam e mesmo sendo a personificação do pináculo evolutivo até então, não deixam de ser humanos. Intrigas, discórdias e sede de poder assolam estes homens que com pequenos grandes actos vão mudar a História da humanidade de uma forma que jamais previram e que vos convido a descobrir neste livro.

No final do livro é possível ver um cronograma, o único extra, com os principais acontecimentos do mundo a partir do final dos acontecimentos desta história. O próprio Jonathan Hickman diz que, apesar de ser uma história com um final (se bem que aberto), irá continuar a contar a história desta linha temporal alternativa estando previsto para daqui a uns tempos a continuação 150 anos depois dos acontecimentos do actual livro.

Jonathan Hickman é um designer profissional que de um momento para o outro deu o salto para os comics. Começou na Image com certas mini-séries sempre ligadas a ficção-científica que em maior ou menor grau mostram um futuro perto com temáticas bem actuais como o jornalismo e o seu papel na política (Nightly News) ou engenharia genética ao alcance de todos (Transhuman).

A sua formação de designer permite-lhe um estilo de desenho (chamemos-lhe assim), completamente fora do habitual. Pintura, colagem e desenho digital misturam-se numa amálgama de cores simples ajudando ao estilo de escrita e ambiente diferentes do habitual. O layout das vinhetas e diálogos também é de uma simplicidade que nos chega a fazer pensar "como é que nunca me lembre de fazer isto?" e que tenho que concordar com a autora da introdução que será muito brevemente copiado num estilo que terá o nome do autor.

Com uma sensibilidade muito diferente da habitual no que toca à ficção científica, Hickman, que criou este livro todo de raiz (desenho, cores, legendagem, paginação, design), é um dos novos valores dos comics americanos, uma aposta segura que aconselho a manterem debaixo de olho.
Muito recentemente deu o salto para a Marvel sendo um dos escritores destacados no selo The Write Stuff onde a editora mostra as mais recentes apostas em termos de argumentistas. Actualmente está a escrever Secret Warriors em colaboração com Brian Michael Bendis além de ser o novo argumentista apontado para substituir Mark Millar aos comandos da revista Fantastic Four. Claramente uma estrela a subir a uma velocidade vertiginosa.

Para lerem gratuitamente o primeiro número desta mini-série de 4, cliquem aqui.

29 July 2009

Diário de Bordo VI - V Festival Internacional de BD de Beja

A partir de agora irei disponibilizar aqui todos os textos que fizer mesmo que estejam disponíveis noutros sites. Devido ao facto da Centralcomics ter sido recentemente remodelada, e para evitar ter que recuperar os vários textos que estavam perdidos, todos os textos irão estar disponíveis aqui.

Pderão ver mais fotos na minha conta do Flickr, mais propriamente na pasta sobre Beja 2009.


Mais um ano, mais uma edição do festival de Beja. Se o ano passado foi o desabrochar do festival com um ‘cabeça de cartaz’ sonante, este ano foi a confirmação. Da minha parte, fica aqui uma descrição dos dias 29 a 31 Maio.

Posso dizer que o festival, antes de ter começado oficialmente, me reservou muitas surpresas. Tendo escrito um texto sobre Gary Erskine para o Splaft, o catálogo do festival, fiquei extremamente surpreendido por saber que ia ter o privilégio de acompanhar Gary Erskine e a sua mulher na viagem de Lisboa para Beja onde pude constatar a enorme simpatia e simplicidade deste autor escocês.

Chegados à Galeria do Desassossego, já tínhamos à espera uma bela comitiva de autores constituída por Marco Mendes, Denis Deprés acompanhados pelas respectivas mulheres, Craig Thompson e Sierra Hahn, editora da Dark Horse (que surpresa das surpresas era a companheira de Craig) e o grande Mattotti. Isto sem falar da boa disposição de Geraldes Lino que chegou mais tarde.

Depois de termos experimentado os mais diversos estranho pratos da casa, começou a jornada na busca por um bar na noite bejense. Apesar de termos ‘perdido’ alguns companheiros nessa difícil campanha, fomos acompanhados pelo Hugo Teixeira e Vidazinha. Finalmente encontrado um bar com snooker que o Geraldes Lino tanto insistiu, uma alegre conversa bem regada com copos, desenhos (indecentes) e fotografias, a noite prolongou-se com um feroz combate de snooker entre as tropas portuguesas constituídas por Geraldes, Marcos e Hugo Teixeira contra os ianques Sierra e Craig que, verdade seja dita, não pareciam ter muito jeitinho para o jogo. Devido ao jet lag da viagem, Craig e Sierra tinham a pica toda para continuar no jogo mas como se costuma dizer, no dia seguinte trabalha-se e acabamos o jogo às 3 da manhã com um empate.


SÁBADO, ABERTURA DO FESTIVAL
Devido ao vento e temperaturas algo baixas na edição anterior, este ano foi decidido um adiamento do festival para uma altura de bom tempo. E que tempo! Céu limpo e temperaturas a rondarem os 40º que deixavam qualquer um de rastos, ainda para mais americanos e escoceses pouco habituados a este calor.
Ainda assim, este maravilhoso e terrível tempo não demoveu imensa gente de sair à rua e comparecer para a abertura do festival que, como é da praxe, se atrasou. Nada que não se revolvesse com 2 dedos de conversa com conhecidos e autores no mercado do livro. Após o discurso inaugural do Presidente da Câmara, as portas ficaram abertas para se poderem apreciar as diversas exposições. Tantas onde destaco o novo valor nacional que é Carlos Rocha, a vasta exposição de Mattotti, a diversidade de Gary Erskine e a simplicidade do traço de Craig Thompson.

O maior afluxo de visitantes ao festival também se sentiu nos autógrafos onde Thompson foi dos mais requisitados e Erskine o mais demorado porque além de falar pelos cotovelos, dedicava-se a fazer desenhos com enorme atenção ao detalhe. Eram quase 20 horas e ainda estava a atender pedidos.


A programação continuou com as inaugurações das exposições Luminus Box, Venham+5, Voyager e Hugo Teixeira na Biblioteca Municipal, seguindo para o Museu Jorge Vieira – Casa das Artes com a exposição de Marco Mendes e finalmente acabando no Museu Regional de Beja, onde a obra de Alex Gozblau estava exposta e se realizou o habitual jantar volante.

Este jantar ficou marcado por uma justíssima homenagem a Geraldes Lino que foi apanhado desprevenido tendo ficado sem palavras. Uma homenagem pelo trabalho feito na área dos fanzines, pela sua extrema dedicação à nona arte e pela criação da tertúlia de BD de Lisboa que fez 24 anos nesta última quarta-feira, dia 3 Junho. Além do discurso do Presidente da Câmara de Beja, este ofereceu 4 medalhas da cidade e uma placa alusiva à homenagem.

Com muitos copos e boa disposição à mistura, os bedéfilos tomaram conta da Galeria do Desassossego onde este ano se realizou o concerto com os portugueses Million Dollar Lips! e à semelhança do ano passado prendeu a atenção de um dos autores presentes, neste caso o italiano Mattotti.

DOMINGO...
E o sol sem dar tréguas. Uma visita guiada ao centro de Beja onde estavam presentes mais bejenses que visitantes de outras cidades coincidiu com o debate da Associação de Autores de Banda Desenhada. Esta reunião que dizem ter sido pouco frequentada parece mais uma vez confirmar a ideia de que apesar do muito que se fala e se podia fazer, a mesma “meia dúzia de cromos” da BD não se consegue juntar num grupo coeso. Ainda assim, do que depreendi do relato de algumas pessoas presentes, a associação parece ter dado alguns passos no sentido de tentar ter alguém que se dedique a tempo inteiro de forma a aliar esforços que neste momento estão dispersos em diversos projectos e que se poderiam unir em alguns poucos com mais impacto e pujança.

O dia foi preenchido com conversas, workshops e apresentações, algumas das quais adiadas do dia anterior como as do Venham+5 #6 e O Maior de Todos os Tesouros de Carlos Rocha. Todos os anos por esta altura já é habitual a apresentação de um novo número da antologia Venham+5 que este ano muita gente estranhou ser tão “fininha” já o número de autores que participaram diminuiu.
Destaque para a apresentação de um novo autor de BD humorística, Carlos Rocha que apresentou o seu O Maior de Todos os Tesouros como parte integrante da colecção Toupeira.

Gary Erskine deu uma preciosa ajuda com o atelier “Entra no Mundo dos Comics” onde deu bastantes conselhos sobre como apresentar e melhorar um portfólio tendo analisado os de alguns autores presentes. Isto enquanto decorria na bedeteca as apresentações do Menino Triste de João Mascarenhas, Zona Zero e Celacanto.

Devido à sucessão de apresentações adiadas, todas estas apresentações ficaram atrasadas tendo a conversa com Craig Thompson sido adiada para as 18, altura em que infelizmente muitos de nós tiveram que sair.

De um modo geral penso que a edição deste ano fica marcada pelo “+”. + autores, + exposições, + pessoas, enfim, um festival mágico que já nos habituou a superar-se todos os anos.
Novidade nesta edição foi a sobreposição de vários eventos que infelizmente tornaram impossível assistir a todos, facto que comprova que o festival está a crescer bastante dando-se ao luxo de se dispersar em várias vertentes.
Este ano, os miúdos não foram esquecidos estando parte da programação bastante focada neles com os autores Rui Cardoso e Carlos Rocha disponíveis além de filmes e actividades para os entreterem.

De notar que a manga continua com a pujança habitual estando este ano representado com 4 (!) exposições (All-Girlz, All-Girlz Banzai, Luminus Box e Hugo Teixeira) além da apresentação do All-Girlz Galore e lançamento do Monótonos Monólogos de um Vagabundo – Entrevista com Hugo Teixeira.

O festival acabou neste último fim-de-semana e já se ouvem algumas críticas já habituais sobre a aposta no alternativo. A verdade é que, como já ouvi dizer, “o alternativo é o novo mainstream”. O chamado mainstream parece estar a definhar, pelo menos a ver nas editoras que editavam material traduzido, enquanto que os fanzines, edições de autor e outros com tiragens reduzidas são o que parece mais vingar num mercado que já viu (muitos) melhores dias. Percebo a crítica e de certa forma compreendo-a mas ainda me vão convencer que Craig Thomspon é alternativo! (dêem uma vista de olhos no catálogo da editora Fantagraphics).

Confirmados (em principio) para o próximo ano já estão Hypoolyte e Mike Mignola numa edição que Paulo Monteiro já descreveu que “Será o melhor de todos os festivais que fizemos e o pior de todos os que haveremos de fazer!”
Com estes nomes não há que enganar, mais uma vez será a melhor edição de sempre do festival alentejano.

Tenho que agradecer ao Paulo Monteiro pela possibilidade de estar presente para escrever esta rubrica e também por um excelente trabalho de organização que apesar de tudo deve ser provavelmente quem menos aproveita o festival estando ocupadíssimo a resolver problemas que os visitantes nem notaram.

25 February 2009

Give Me Liberty!





Argumento: Frank Miller
Desenho: Dave Gibbons
Cor: Robin Smith
Editora: Dark Horse Comics


I know not what course others may take but - as for me - give me liberty or give me death.
Patrick Henry


Diz-se que a História tem tendência a repetir-se e prova disso é esta série de culto.
Criada em 1991, Give me liberty foi uma obra visionária, reflexo dos anos anteriores que moldaram o mundo e que nos dias que correm tem uma actualidade impressionante e assustadora.
Em 1995, na altura um futuro não muito distante e de certa forma (im)provável, a América é uma poderosa nação, detestada pelo mundo inteiro. Expulsa da ONU por ter invadido territórios como a América do Sul, Israel, Cuba, Paquistão ou Indochina com a justificação de serem no man’s land, territórios abandonados e/ou conflituosos, a criminalidade aumentou drasticamente e movimentos separatistas e extremistas desenvolvem-se às centenas lutando contra a administração central pelas mais disparatadas razões.

Uma parte da população vive em mini cidades, complexos vistos pela população exterior como prisões/asilos onde os criminosos sem emenda são enviados para cumprir as suas penas ou serem tratados. A verdade é que estes complexos são verdadeiras cidades em miniatura com todas as infra-estruturas necessárias à vida normal (escolas, hospitais, etc.) onde famílias inteiras nascem, vivem e morrem em espaços minúsculos, sem as mínimas condições e sem ver alguma vez a luz do dia. É neste tipo de instituição que a protagonista desta série, Martha Washington, nasce em 1995, um ano antes de Erwin Rexall ser eleito presidente. Desde muito nova habituada a este gueto, Martha é um génio com computadores, uma lutadora nata que sabe que a única forma de escapar a esta prisão é ser abandonada à sua sorte na rua. Esta é a solução encontrada para muitos instáveis mentais não sobrecarregarem em demasia o governo, resultado dos inúmeros cortes orçamentais que o Presidente Rexall decretou.

Erwin Rexall, um sonho de presidente que faria qualquer bom conservador redneck orgulhoso (e um produto eleitoral com muitas afinidades ao filósofo grego que nos governa), eleito pela primeira em 1996, trata de aumentar ainda mais a pressão interior e exterior dos EUA.
Levando ao extremo os ideais conservadores, Rexall faz inúmeras alterações à constituição podendo-se recandidatar sem limite, impondo um regime de ferro à população, alia-se à Polícia da Saúde, uma versão distorcida da Cruz Vermelha chefiada pelo louco Cirurgião Chefe e autorizando a morte indiscriminada de milhares de sem-abrigo que há muito infestam as cidades, resultado das expulsões das instituições.


Em pleno colapso da economia mundial, em guerra com o Irão graças a um estúpido erro que fez arder inúmeras jazidas de petróleo e com a população apache a criar problemas numa refinaria, em 2009 o impensável acontece. Uma bomba incendiária mata todos os membros do governo de Rexall, deixando este em coma profundo. Como resultado deste atentado reivindicado por mais de 60 organizações, o então ministro da agricultura, Howard Nissen, assume o lugar de presidente. Democrata e ambientalista convicto, Nissen dá uma grande volta aos desígnios do país, reconhecendo a independência da Nação Apache, assinando um armistício com a Rússia e mobilizando todas as tropas para a Amazónia, local devastado pelas empresas de hambúrgueres que se tornaram imensamente poderosas e que defendem a todo o custo as pastagens da principal fonte de alimento americana.


Martha Washington (nome da mulher do primeiro presidente dos EUA), a personagem principal desta série de culto, é uma simples rapariga nascida em 1995 no seio de uma pobre família negra a viver o complexo Cabrini Green.
Conseguindo escapar do complexo com apenas 14 anos, Martha é a nossa companhia nos eventos históricos que atravessam os EUA. Martha esteve quase sempre na linha da frente destes eventos por se ter alistado à PAX, uma suposta força de paz (uma espécie de SHIELD) americana deturpada e ao serviço do próximo golpe sujo do governo e que lavou a cara com a intervenção de Nissen. Quem se alistasse na PAX veria o seu registo criminal limpo. Martha aproveitando esta oportunidade, vai para a frente de combate na Amazónia onde é ferida pelo megalómano Coronel Moretti. Esta personagem manipuladora, herdeiro de família rica, chantageia Martha e usa-a nos seus esquemas para subir no poder na PAX e no governo.


Claro que nem tudo são rosas com a administração Nissen. A guerra na Amazónia mostrou-se desastrosa com pesadas baixas de ambos os lados. Alvo de vários atentados, o seu governo começa a ser minado por dentro por nada mais, nada menos que Moretti que pretende instaurar estado marcial e que irá levar o país a uma nova guerra civil.

Lutando contra (ou ao lado) de todas as personagens de relevo da série, Martha demonstra a sua tenacidade e bravura, escolhendo sempre o menor de vários males de forma a poder salvar o país de inúmeras ameaças.

Esta obra apesar das suas virtudes, também tem os seus defeitos. Resumidamente pode-se dizer que 4 números são pouco espaço para tanta informação. O leitor é transportado a uma velocidade fenomenal pelos acontecimentos que na maioria das vezes falham em construir uma base credível para a transição entre os eventos em que Martha Washington se vê envolvida e as explicações gerais dadas ao leitor sobre vários acontecimentos que afectam a heroína.

O desenho de Dave Gibbons é simplesmente impecável. Não há muito mais a dizer além de que é superior à rigidez de se vê em Watchmen e que muito deve também às cores de Robin Smith.

Frank Miller excede-se. Descrito por alguns como “um festival de cenas de explosões numa guerra pela supremacia de uma empresa de hambúrgueres (com alguma politica pelo meio)”, não me canso de repetir que Give me liberty é uma obra visionária. Sim, temos as situações impossíveis de uma personagem que mais parece ser invulnerável. Sim, temos as habituais explosões, combates, acção e inúmeras situações limite. Sim, temos uma heroína que salva o dia inúmeras vezes. Temos também as típicas ridículas organizações extremistas como, por exemplo, a Nação Ariana Gay que já vimos variantes em obras como Ronin ou Dark Knight Returns.
E no entanto esta obra é tudo isso e muito mais superando-se a si mesma.
Num mercado infestado de homens musculados e beldades esculturais semi-despidas todos os dias ao soco e pontapé a tentar provar algo (?), é preciso tirar o chapéu à Dark Horse e à dupla de criadores da obra por terem dado um verdadeiro salto de fé. Ter como heroína uma maria rapaz negra armada em Rambo foi um risco tremendo para todos os envolvidos… E ainda assim Miller superou.


Como já referi atrás, toda esta mini série encontra-se assustadoramente actual. Quase todos os acontecimentos nele encontram um paralelismo com a actual situação no mundo. É difícil pensar que esta obra foi produzida há mais de 15 anos numa altura em que o mundo se parece tanto como hoje. Poder-se-ia dizer que Give me liberty é o reflexo dos acontecimentos passados antes da sua produção e no entanto, o leitor facilmente se esquece destes pormenores e trata de associar eventos actuais aos da obra.
A Guerra na Amazónia é uma clara alusão à desastrosa Guerra do Golfo (ou ainda a Guerra do Vietnam) mas hoje, mais do que nunca, pode ser feita um paralelismo com a actual Guerra do Iraque e futuramente a Guerra do Afeganistão já que os EUA estão a retirar do Iraque para se concentrarem duramente neste país que lhes está a ficar fora de controlo muito rapidamente;
O colapso da economia e de Wall Street que levaram aos caos social é uma cópia exagerada (?) do que actualmente se passa no mundo;
A excessiva poluição produz um pesadelo ambiental que nos preocupa actualmente e que podemos ver as consequências nesta obra;
Também é incrível ver a semelhança que pode ser feita entre Rexall e Bush (ou até em menor grau o dito filósofo) e respectivos sucessores, Nissel e Obama que muda(ra)m a imagem da América. Curiosamente, Nissen toma posse em 2009, o mesmo ano em que Obama também foi oficialmente declarado presidente dos EUA.

Com estas semelhanças e muitas outras que vos desafio a descobrir, não há margem para dúvida em afirmar que Frank Miller foi um visionário e criou uma obra obrigatória que merecia um muito maior destaque e uma profunda análise. Esta obra merece, mais do que nunca, uma leitura muito séria. Que nos sirva para pensar, nem que seja por um bocadinho, no estado actual do mundo e no que uma simples pessoa (cada um de nós) pode dar de si para criar para contribuir para um mundo melhor tal como Martha fez.

A lista completa de estórias é a seguinte:
-Give Me Liberty (mini série de 4 números)
-Martha Washington Goes to War (mini série de 5 números)
-Happy Birthday, Martha Washington (one-shot)
-Martha Washington Stranded in Space (one-shot)
-Martha Washington Saves the World (mini série de 3 números)
-Martha Washington Dies (one-shot)

Encontra-se em preparação um Omnibus de mais de 600 páginas com tudo o que esteja referente à personagem de Martha Washington que estava previsto sair em 2008. Actualmente no site da Amazon fala em Julho deste ano. Resta-nos esperar.

NOTA: Quem tiver a 3ª e 5ª séries para venda, que me contacte por favor já que são as únicas estórias que me faltam para acabar a colecção.

09 November 2008

Diário de Bordo V - FIBDA 2008

Recuperado mais um Diário de Bordo. Desta vez a visita foi feita ao festival da Amadora que este ano esteve muito bom. Não quis abusar mais da vossa paciência senão tinha escrito mais.

E aqui as sugestões de compra para este ano:












Material estrangeiro já toda a gente conhece. Apoiemos a produção nacional.
COMPREM!!!!

Ia ter um conto publicado no Venham +5 a ser lançado neste FIBDA. Acontece que não há Venham +5 este FIBDA... Fica a dúvida se sairá no próximo número (por altura do festival de Beja) ou nalgum BDjornal ou antologia. Os desenhos (muito bons por sinal) são do Véte!

No BDjornal #23, estão pranchas dos Murmúrios das Profundezas. Em pré-publicação... Quando o livro já está esgotado.

Novas críticas estão constantemente a ser adiadas. Já tenho um bom número de reviews meias feitas mas falta tempo. Entre elas: Fall of Cthulhu, World War Hulk, Captain America, Thor e outras que não me lembro.

Mais novidades: estou a entrevistar essa figura mítica que é o Pat Mills e prometo alguma polémica no resultado final... Se tiverem perguntas que valham a pena, digam-me que eu passo-as ao Pat.


A cidade da Amadora foi mais uma vez palco da maior festa da 9ª arte no nosso país. Nesta 19ª edição subordinada ao tema “Tecnologia e Ficção Científica”, todas as expectativas foram superadas e pouquíssimas criticas foram ouvidas. Na recta final deste ano, aqui fica o Diário Bordo do primeiro fim-de-semana.

Tendo visitado os últimos 5 anos do FIBDA, posso afirmar sem sombra de dúvida que o festival melhora a olhos vistos de ano para ano. Tudo este ano foi quase perfeito.
Imitando um ambiente futurista, toda a concepção do espaço do festival foi pensada como um grande astro-porto com direito a nave espacial alojada.

No piso térreo apresentavam-se o grosso das exposições num ambiente um pouco labiríntico mas muito bem decorado cheio de estranhas criaturas alienígenas e decoração a condizer com o tema de cada exposição.

A exposição do Dave McKean era em tudo semelhante à de Beja. Apresentava a mesma prancha do Asilo Arkham, amostras de Mirromask, Cages e a capa para o 1º comic da série Hellblazer. Ainda assim o grande destaque foi para a obra Mr. Punch com muitas pranchas, a maioria delas não expostas em Beja e com decoração a condizer com a obra.

A exposição de Oesterheld mais uma vez teve problemas. À semelhança do festival Viñetas desde o Atlántico, não foi possível expor originais do autor. Se se pensava que o problema com o festival de Corunha em Agosto tinha sido isolado, agora confirma-se a ideia que o autor assassinado ainda é um assunto que não agrada à Argentina apesar da mudança de regime.

Destaque ainda para as exposições do fanzine Venham +5, os originais do concurso deste ano que revelam muitos excelentes novos autores, Luís Henriques que mostra o quão versátil é e Rui Lacas que infelizmente tinha em exposição uma prancha e uma das paredes decorada com uma cena do livro que em muito estraga a história a quem não a leu.

O piso -1 foi projectado à semelhança de uma grande e comprida nave espacial cheia de recantos escondidos com surpresas. Quando se pensava que se tinha visto tudo, havia sempre mais um canto com uma novidade. Se por um lado imita o ambiente de uma nave, por outro alguns visitantes podem perder as exposições

Com a zona comercial logo à cabeça, a “nave” estendia-se para a zona de autógrafos ladeada pelas 3 exposições, e continuando em varias divisões até ao fim do espaço onde se encontrava a exposição Star Wars.

O destaque deste piso vai para a surpresa que foi a exposição da delegação chinesa, Menino Triste do João Mascarenhas e Tara McPherson que só pecava por não ter mais originais já que a maioria da exposição era composta por prints de edição limitada que estão disponíveis no site oficial da ilustradora.

Apesar da excelente qualidade das exposições, a grande desilusão foi na minha opinião a exposição Star Wars. Basicamente uma exposição de coleccionáveis ligados à obra (miniaturas, action figures, estatuetas, etc.) e alguns posters da trilogia original e imagens do mais recente filme (Clone Wars), esta exposição peca precisamente pela falta de variedade. Com um universo tão rico e variado como este, não existe falta de material para exposição. Existe uma imensa variedade de BDs relacionados com este universo que fariam mais sentido estarem expostos. E ainda para mais quando um dos autores convidados para o 1º fim-de-semana, Pat Mills, já participou com alguns comics para este imenso mosaico de histórias.

O fim-de-semana foi bem concorrido com uma diferença abismal no Domingo. No Sábado andava-se muito à vontade por todo o lado mas no Domingo, especialmente na zona de autógrafos, notou-se uma maior afluência.

Os autógrafos, contrariando o caso Manara do ano passado, correram muito bem. O espaço estava genialmente projectado apesar de algumas queixas por parte dos autores que tinham pouco espaço e luz e das pessoas na fila que tinham que se abaixar como se estivessem num guiché de alguma repartição pública.

Dave McKean esteve presente no Sábado ao fim da tarde passeando anonimamente por algumas exposições. No Domingo, repetindo muito do que já tinha dito no Festival de BD de Beja, fez uma conferência e sessão de perguntas a um vasto público. Alguns metros adiante, estava a formar-se uma fila para os autógrafos ainda antes do autor chegar ao recinto. Apesar de ter sido a maior fila deste fim-de-semana, o autor conseguiu despachar desenhos e assinaturas a um bom ritmo e toda a gente levou para casa mais alguns livros assinados. Mesmo havendo um limite de um desenho e três livros por pessoa, o autor fez questão de presentear os detentores do guião do Mirrormask com um desenho extra apesar da pressa que tinha para apanhar o avião que partia em poucas horas.

Pat Mills sempre impecável teve pouca afluência. Por ser escritor, os autógrafos tendem a ser rápidos e o facto de ter pouco material à venda contribuiu para poucas assinaturas mas isso não o impedia de ser extremamente simpático, falando pelos cotovelos com Kevin O’Neill ou outras pessoas que o abordassem.
O mais engraçado nesta dupla inseparável foi ficarem deslumbrados com certos livros que as pessoas lhes pediam para assinarem. Esgotados há muitos anos, nem os próprios autores tinham um exemplar e assim trocaram muitos endereços de lojas com esse material ainda disponível.

Kevin O’Neill, tendo esquecido do material de desenho no hotel, teve que improvisar com simples canetas de esfera, fazendo desenhos rápidos e que desiludiram um pouco quem estava à espera do detalhe que o autor apresenta na Liga de Cavalheiros Extraordinários. Foi um dos autores que viu a procura aumentar bastante de Sábado para Domingo sempre disponível para o elevadíssimo numero de exemplares de livros da Liga que toda a gente parecia possuir.
Apesar de estar impedido de dar detalhes das novas aventuras, Kevin deixou “escapar” que a série a próxima aventura editada pela Top Shelf se passará no século XX e apresentará novas personagens. Será que vamos ter uma nova Liga completamente refeita?

Tara McPherson sempre muito cordial começou com poucas pessoas no Sábado e acabou no Domingo com filas contínuas. Com bastantes sorrisos e desenhos simples, esta autora mais conhecida pelos seus trabalhos de ilustração para bandas foi uma das estrelas do fim-de-semana. Foi outro dos artistas que viu a procura aumentar substancialmente de Sábado para Domingo.

Liberatore e Esteban Maroto tiveram uma procura regular durante todo o fim-de-semana. Ambos grandes desenhadores, as filas para ambos eram muito demoradas mas o incrível detalhe e cuidado que dedicavam a cada desenho compensavam a espera e as pernas doridas. Esta grande procura ainda fez esgotar no Domingo todos os desenhos do portfólio que o Maroto tinha venda a preços muito simpáticos.

Os autores portugueses estiveram sempre bem representados com os habituais Ricardo Cabral, João Mascarenhas, equipa da Kingpin of Comics ou o omnipresente José Carlos Fernandes.
Só foi pena a malta da Marvel não ter aparecido para uma apresentação ou sessão de autógrafos conjunta.

Com uma edição tão cuidada, fica a questão de como conseguirá o festival crescer ainda mais na próxima edição quando já atingiu um tão elevado nível na qualidade dos autores, exposições e espaço que oferece.
Venha o que vier para a próxima edição subordinada ao tema “O Grande Vigésimo”, estaremos aqui para a acompanhar o maior festival do nosso país.

19 September 2008

Black Summer

Argumento: Warren Ellis

Desenho: Juan Jose Ryp

Editora: Avatar Press


Numa altura em que a política voltou a ser tema nos comics de super heróis onde estes apresentam os seus argumentos ao sabor de pontapés e socos, Warren Ellis criou uma mini série política onde o tema de super heróis é mais uma vez analisado a uma nova luz.


A premissa desta série e muito simples e ao mesmo tempo controversa: se a tarefa de um super-herói é deter o crime sempre que o encontrar, não poderá esse super-herói deter um governo corrupto?

John Horus é o elemento mais poderoso dos Seven Guns, um grupo de super humanos que adquiriram “melhoramentos” de forma artificial e que se dedicaram a livrar a sua cidade de toda a corrupção, drogas e gangs.


Justificando-se com o facto de o governo dos EUA ter falsificado as eleições e ter entregue a segurança da nação a empresas privadas de segurança que contratam mercenários enquanto os soldados americanos morrem numa guerra baseada em mentiras, John Horus assassina o presidente e vice-presidente na véspera das comemorações do Dia da Independência exigindo eleições livres e um novo começo para o país.

Acontece que quando alguém ameaça o governo dos EUA, a resposta não se deixa esperar. Não querendo correr o risco dos outros Guns estarem envolvidos apesar das garantias dadas por John Horus, o primeiro alvo a abater é Tom Noir. Este é o mais inteligente dos Seven Guns que abandonou a prática quando uma bomba lhe custou uma perna e matou a sua colega e namorada Laura Torch mantendo os seus melhoramentos/poderes desligados há mais de um ano não sabendo se ainda funcionam.


Com o exército a invadir a cidade mas não se arriscando a atacar frontalmente os Guns, estes resgatam Tom Noir e procuram abrigo abrindo caminho de forma espectacular. Acontece que existem outros jogadores que querem os Guns destruídos. O primeiro alvo (falhado) foi Tom Noir. Com esta reunião dos restantes 5 Guns, uma força de vários agentes com melhoramentos semelhantes aos Guns são destacados para abatê-los dando azo a espectaculares, destrutivos e sangrentos combates ao longo dos 7 números desta mini série.



Black Summer é uma mistura de temas. Numa primeira vista, a ideia parece (mais uma vez) ser os super heróis a trocar argumentos e a tentarem mostrar a melhor opção política ao soco e pontapé. De facto a série está cheia de combates grandiosos mas a verdadeira mensagem está em certas críticas que o Warren Ellis faz aos EUA. Sendo um escritor inglês, Ellis consegue o distanciamento necessário para fazer uma análise política e uma forte critica aos EUA na sua intervenção no Iraque.


Esta série também consegue ser uma profunda reflexão dos super heróis: qual é a linha moral que divide os actos de um super herói dos de um criminoso?; com acesso a poderes incríveis, os heróis não conseguiriam semelhantes resultados sem recorrer à violência?; à semelhança de Watchmen, quem é que poderá controlar estes super seres e saber se não terão enlouquecido?; como é que um herói define quais são os limites aceitáveis para quebrar a lei por aquilo que considera ser certo?.

Uma nova perspectiva dada aos super heróis, resultado de uma aposta que o Warren Ellis fez com o editor da Avatar como poderão ler no texto introdutório da série.


O desenho de Juan José Ryp é extremamente detalhado. Tem um nível de pormenores que faz lembrar o de Geof Darrow mas a um ponto de quase saturação da página sem deixar de a sobrecarregar demasiado. A minúcia é tal que quase se poderia reconstruir um vidro partido a partir de todos os pedacinhos que foram desenhados. O mal dele é que não consegue transmitir movimento em muitas vinhetas. Ao desenhar um simples pontapé, o desenhador parece ter as personagens em pose e estar mais preocupado com desenhar os efeitos desse mesmo pontapé do que mostrar movimento e impacto. Ainda assim o extremo detalhe dos desenhos valem uma segunda leitura para apreciar alguns pormenores (exemplo, numa splash page de completo massacre, a um canto, muito pequenino, temos o SpongeBob).

10 September 2008

Breaking the Fourth Wall

Argumento: Grant Morrison
Desenho: Chris Weston
Editora: Vertigo

The Filth é uma expressão do calão britânico que designa a polícia. Filth também pode designar algo pornográfico, sujo. The Filth é também outro nome dado à agência The Hand, uma organização secreta que se dedica a manter o “Status: Q” (status quo) da Humanidade livrando-a de tudo o que é aberração, perverso, não natural, e que representem uma ameaça com que as pessoas ditas normais não podem ou não querem lidar.

Greg Feely é um solteiro viciado em pornografia e obcecado com o seu gato Tony. Os seus vizinhos acham-no estranho e, além disso, é suspeito de ser pedófilo. Mas Greg não é mais do que um para-persona, uma identidade falsa dada a Ned Slade quando este se reformou da Hand e lhe limparam a memória. A sua reforma foi interrompida porque a ajuda dele é necessária para combater novas ameaças e é designado um substituto para tomar conta do gato e seguir com a vida normal de Greg para não levantar suspeitas.

Mas acontece que Greg não se lembra nada da sua anterior vida como Agente Slade. A explicação tantas vezes repetida pelos agentes da Hand é que na sua última missão, Slade sofreu um trauma que o fez esquecer-se da sua existência anterior como agente e agarrar-se demasiado à para-personalidade de Greg Feely.

Slade é enviado para diversas e estranhíssimas missões: acompanhado por um chimpanzé comunista que não gosta de humanos e que se gaba de ter matado JFK, tentam impedir as maquinações de Spartacus Hughes, um ex-companheiro de Slade agora classificado como anti-person; impedir uma arma biológica criada por um realizador de filmes pornográficos a partir do sémen negro de Anders Klimakks, outro anti-person que consegue até engravidar uma mulher de 75 anos!; nano tecnologia criada para ajudar a Humanidade que vivia num mini planeta idílico até esse equilíbrio ser brutalmente destruído por Spartacus com consequências que se repercutem no resto do livro.

E sempre rodeado de suspeitas sobre o verdadeiro papel da Hand e dos seus agentes incluindo ele mesmo, Slade a dada altura rebela-se contra a agência e descobre algumas verdades sobre a mesma, sobre a realidade como a conhecemos, sobre a(s) sua(s) própria(s) identidades que ele sempre pôs em causa, sobre o poder que a ficção tem de criar novos mundos.
The Filth é uma leitura estranha e difícil onde as aparências enganam sempre. É um murro mental que promete muitas dúvidas e onde se toca em imensos temas como realidades alternativas, crises de identidade, teorias da conspiração e ainda certas paródias e reflexões sobre os super heróis.


Destas paródias destacam-se os fatos utilizados pelos agentes da Hand que são muito garridos e ridículos de forma a mexer com o inconsciente de quem os vê e fazê-los esquecer do que viram (algo à semelhança da luzinha utilizada pelos Men in Black). O conceito da BD de super heróis é também palco de uma das cenas mais estranhas e geniais deste livro onde, à semelhança de Watchmen do Alan Moore onde existe uma BD (a dos piratas) dentro da própria BD que é o Watchmen, em The Filth existe um meio de alguns agentes “mergulharem” no mundo de uma BD para resgatar instrumentos que possam usar na realidade sendo esta realidade, uma realidade criada por uma personagem. Confuso? Sim, muito! Imaginem que era possível mergulharem dentro dos acontecimentos de um comic que têm lá por casa e saírem quando quiserem trazendo coisas de lá. Este método é utilizado pelos agentes na sede da Hand estando esta situada numa realidade alternativa/paralela aparentemente criada por um ser misterioso que mais tarde é revelado para grande surpresa do leitor.

A esta técnica de escrita chama-se fourth wall e pode ser encontrada nas reflexões acerca das Crises na DC e também noutras obras onde a personagem sabe que é uma personagem numa estória e dirige-se ao seu criador ou ao leitor. Aqui é usada numa forma ainda mais complexa onde existem várias "quebras" da fourth wall mas sem se dirigir ao leitor.

É um livro que convém reler várias vezes para captar os sentidos da estória e onde se descobrem sempre coisas novas a cada nova leitura.
Este livro é um mergulho num verdadeiro festival esquizofrénico onde abundam a pornografia, drogas, muitos palavrões e violência gráfica que não estão ali por acaso. Por mais confuso que tudo seja, há sempre uma finalidade.


Quase que se podia dizer que este livro é Grant Morrison usando drogas duras e sem qualquer tipo de censura por parte da editora. Ainda assim o livro peca por ser confuso numa primeira leitura mas, como fica a fazer comichão mental, as releituras são bem vindas e com um pouco de ajuda, descobrem-se sempre mais pormenores e outros sentidos escondidos. Penso que um maior número de páginas por comic ajudava o livro a ter espaço para se desenvolver melhor e deixar o leitor respirar.

As capas são de Carlos Segura e pode-se dizer que são no mínimo extraordinárias. Todo o livro é apresentado como sendo um medicamento (até contém nas primeiras páginas o modo de utilização como os verdadeiros medicamentos onde se descrevem efeitos secundários, recomendações, posologia, composição, etc.) com um grafismo que faz lembrar simples caixas de medicamentos.

Os desenhos de Chris Weston cumprem o objectivo. São simples, eficazes e realistas mesmo num ambiente de completa maluqueira onde se vê de tudo.

21 August 2008

Diário de Bordo IV - Viñetas desde o Atlántico, um festival de lições

Bem sei que não tenho dito nada. Ando meio ocupado com Venham +5, concurso do FIBDA, Zé Manel. A outra metade é com filmes, alguma BD e lutar para acabar de ler os livros.
E agora com 2 semaninhas no Algarve dedicadas à leitura já que (finalmente!) vou estar longe de computadores que só me distraem das leituras lol

Fica aqui o mais recente Diário de Bordo, desta vez referente ao festival Viñetas desde o Atlántico em Corunha. Amadora, aprendam com Corunha! Corunha, aprendam com a Amadora!

PS-Infelizmente não há fotos porque estupidamente só me lembrei da máquina quando chegamos a Corunha...



Num país que apoia bastante a cultura e tem uma pujança editorial que só vendo para crer, o Viñetas desde o Atlántico afirma-se como um dos maiores festivais de Espanha. O Diário de Bordo seguiu para o país de nuestros hermanos para visitar durante o dia 15 Agosto o festival da Coruña que celebra este ano a sua 11ª edição.

DIVULGAÇÃO

A divulgação deste festival é excepcional. Logo à entrada da cidade já é possível ver cartazes com o símbolo do festival (que foi criado pelo Miguelanxo Prado na primeira edição do festival) em todos os postes de iluminação além de reproduções em tamanho real de inúmeras personagens de BD em pontos-chave da cidade. É uma boa maneira de reutilizar a publicidade sem haver necessidade de criar novos cartazes todos os anos só porque o desenho do cartaz e o número da edição do festival mudou.

Pode-se dizer que este festival vive da cidade. Lojas que aproveitam o movimento do festival para estarem abertas mais tempo; promoções; e uma população que sai à rua para visitar exposições e bancas que não tem preconceito em relação à BD.

EXPOSIÇÕES

Semelhante a Beja, o festival divide-se em vários locais no centro da cidade. O local dos autógrafos (Palexco), as bancas e o edifício da Fundación Caixa Galicia encontram-se todos na mesma zona das 3 avenidas junto ao porto ao alcance de alguns metros a pé.

As exposições de David Aja e Daniel Acuña situavam-se no equivalente à Câmara Municipal, na praça coração da cidade, obrigando desta forma a conhecer mais da cidade e tudo a uma distância muito acessível.

Estando o Kiosk Alfonso, habitual e principal espaço de exposições do festival ocupado com outra exposição referente à comemoração do 800º aniversário da cidade, algumas exposições deste ano foram transferidas para o edifício Fundación Caixa Galicia propriedade do banco homónimo.
Além das excelentes exposições de Mark Buckingham, Solano López (que devido a problemas, teve em exposição cópias digitais de várias pranchas que muito perdiam para os originais) e da dupla Étienne Le Roux e Luc Brunschwig, quem visitasse o edifício tinha ainda direito a uma exposição do Museu Prado: El Retrato en el Prado. De Goya a Sorolla. Tudo muito bem apresentável e com nível (pena não deixarem tirar fotografias).

No Palexco, muito espaço livre e simplicidade ao máximo reinavam no que era também o espaço para autógrafos. As exposições presentes eram de Howard Cruse, Miguel Gallardo, Paco Roca, Oliver Ka e José-Louis Bocquet e Catel Muller.

ESPAÇO COMERCIAL

As bancas situam-se no exterior, mesmo em frente da Fundación Caixa Galicia. O espaço comercial está completamente desligado do espaço dos autógrafos e isto por um lado permite potenciar as vendas com os leitores ocasionais de passagem e também evitar que num espaço limitado se formem pequenas multidões mas por outro perde nos autógrafos por não se ter à mão uma banca com as obras dos autores. O exemplo da Amadora podia ser aqui seguido mas percebe-se que o mais importante torna-se divulgar as publicações e vender àqueles que não se preocupam com autógrafos.

O espaço comercial com mais de 40 bancas (!!!) dá para ter uma ideia da pujança que o mercado bedéfilo tem em Espanha. Este monstro editorial é constituído por um elevado número de editoras de todos os tipos e editam praticamente tudo o que se vê lá fora sem nunca esquecer os autores nacionais muito bem representados e editados em grandes quantidades. Não deixei de reparar que até uma dessas editoras, a Astiberri tem no catálogo para este ano o anúncio do lançamento para este ano da Agência de Viagens Lemming do omnipresente José Carlos Fernandes.

É possível encontrar virtualmente tudo o que saiu no estrangeiro traduzido. Desde as grandes editoras americanas passando pelos gigantes da manga, underground, franco-belga e tudo o que é possível imaginar.
Num país que traduz tudo é extremamente difícil encontrar material na língua original e é engraçado de ver que, tal como nos EUA, também em Espanha, em imensos títulos das grandes editoras, primeiro lançam-se os comics e depois recolhem-se os arcos de estórias em trades ou HC em edições que são tão ou até mesmo melhores que as estrangeiras sendo raros os casos em que se tornam mais caros que os originais.
AUTÓGRAFOS

Além da diferença no espaço comercial desligado dos autógrafos, no Palexco, local dos mesmos, a disposição das mesas é bastante diferentes do habitual nos festivais. Os autores estão espalhados pelo local e caso tenham arte exposta no edifício ficam junto da sua respectiva exposição.

A organização aqui esteve muito má. Os autores e visitantes são deixados desamparados pois não era possível encontrar ninguém da organização devidamente identificado que pudesse ajudar.
Com a estrela do cartaz deste ano, Mark Buckingham, sem mesa, deduziu-se que o autor tinha faltado a esta edição. Resignando-me a perguntar a um “segurança del patrimonio” se o Buckingham iria comparecer, penso que obteria melhor resultado se lhe tivesse perguntado quando seria o próximo alinhamento de Marte com Vénus.

A sessão de autógrafos com Daniel Acuña e David Aja, dois heróis nacionais que actualmente trabalham para títulos da Marvel, tornou-se algo desesperante e decepcionante do ponto de vista da espera. Sem ninguém para controlar o tamanho das filas, grande parte dos fãs perdeu a oportunidade de obterem desenhos e firmas (assinaturas). O tempo que eles gastavam para cada fã era demasiado para as duas horas (que ainda se arrastaram por mais meia hora) e a dada altura os autores tiveram que anunciar que não iam fazer mais desenhos naquele dia. Mais outro exemplo da falta de organização que os espanhóis aparentemente demonstram muitas vezes.
Pelo menos os desenhos e a simpatia dos autores compensaram o enorme tempo de espera.

ORGANIZAÇÃO

No geral a organização está de parabéns. O festival é excelente, muito bem divulgado e organizado apesar do problema das pessoas desamparadas no Palexco e o muito habitual facto de ainda anunciarem confirmações e horários até ao último dia no blog oficial Viñetas desde o Atlántico.
A organização nisto tem algumas coisas a aprender com a Amadora por exemplo e de certa forma, a Amadora também pode seguir alguns exemplos de Corunha e Beja.
O Viñetas desde o Atlântico concentra apresentações durante uma semana, autógrafos em 2 dias com os autores todos reunidos e as exposições ficam acessíveis durante o mês quase todo. O FIBDB concentra num fim-de-semana as sessões de autógrafos e as apresentações mais relevantes com outros eventos a preencherem os restantes dias
Um festival devia concentrar todos os seus participantes dando, assim, oportunidade de se apreciar ao máximo a festa que é.

Um dia chega perfeitamente para conhecer o festival mas o ideal são 2 dias de forma a ter-se tempo para estar com todos os autores, ver todas as exposições e conhecer melhor a cidade que vale bem a pena. É um excelente festival, obrigatório no guia de “festivais a visitar um dia”.

21 July 2008

Inglorious Basterds

Já está disponível na net para quem tiver paciência para o ler o guião do novo filme de Quentin Tarantino Inglorious Bastards a.k.a. Inglourious Basterds. (Eu tive paciência. Ok podem argumentar que estou de férias e tal mas é o TARANTINO!!! Não ia desperdiçar uma oportunidade destas de spoilar o filme todinho lol)
Aparentemente disponível em exclusivo para o site ANIMAL, o estilo inconfundível de diálogos, cenas a preto e branco, sangue e muito gore tão característicos do Tarantino parecem confirmar a autenticidade do guião.

Passado durante a II Guerra Mundial, o tema resume-se basicamente e mais uma vez a vingança… Simples e pura vingança! Desta vez de Judeus às atrocidades dos Nazis.
Com duas estórias em paralelo que se vão encontrar a dada altura, seguimos as desventuras de uma sobrevivente judia e de um grupo infiltrado de soldados judeus americanos.


Tarantino neste novo filme (e se o guião for mesmo este) consegue juntar dois estilos muito utilizados no cinema: o do/da judeu/judia que tenta sobreviver no meio de um país que a persegue (temos o exemplo do Pianista) e o do pequeno grupo de soldados infiltrado nas linhas inimigas a cumprirem missões (Resgate do Soldado Ryan).

O tema da vingança desta vez é servido nestas duas estórias. Temos uma jovem judia que teve a sorte de sobreviver ao massacre da sua família e que por acaso do destino fica com um cinema para gerir preparando uma vingança muito especial aos nazis e temos o grupo de soldados judeus americanos que se infiltraram para um único propósito: espalhar o terror entre as tropas alemãs de todas as formas possíveis (que é como quem diz, cenas que só podiam ver de uma mente tarantinesca).

Apesar do ambiente fugir bastante do que é costume do Tarantino, asseguro-vos que o estilo dele neste guião está lá todo:
- o tema recorrente da obra deste realizador dá pano para mangas em qualquer época ou cenário;
-tiroteios e explosões sangrentas como já nos habituaram;
-os famosos diálogos;
-as cenas a preto e branco bem escolhidas;
-os gags e coincidências cósmicas habituais (lembram-se no Pulp Fiction da cena do Bruce Willis pugilista e do patrão dele? Há uma ou duas desse género);
-cenas gore, muito gore (menos que no Kill Bill mas violentas graficamente).

Arrisco-me a dizer que é uma estória nada habitual num filme deste género já que o costume é seguirem mais ou menos fielmente os acontecimentos históricos. Aqui a liberdade artística é levado a um belo extremo.

Esperemos que não demore tanto tempo a filmar como demorou a escrever este guião (5 anos). Mais um filme para a colecção que mal posso esperar.

PS-Ele que abuse do corrector ortográfico quando passar o guião para o computador porque aquilo está cheio de erros...

08 June 2008

The best in what he does (II)

Argumento: Brian K. Vaughan
Desenho: Eduardo Risso
Editora: Marvel

A relação de Wolverine com o Japão é um tema muitas vezes utilizado no universo deste herói. Desta vez calhou o período da 2ª Guerra Mundial já depois dos E.U.A terem entrado no conflito.

Depois dos acontecimentos em House of M, o mutante mais amado do universo Marvel, armado com todas as memórias da(s) sua(s) vida(s) passada(s), volta novamente ao Japão para tratar de (mais) um assunto por resolver.

Acabado de chegar, é logo confrontado literalmente com um fantasma do seu passado, uma personagem mistério que o cilindra forte e feio.
Nisto, o leitor é logo transportado para um flashback onde vemos um Logan, paraquedista canadiano, prisioneiro de guerra dos japoneses e na companhia de um paranóico tenente americano. Servindo-se dos seus talentos mutantes, Wolverine e o tenente escapam da fortaleza e embrenham-se na floresta.
A dada altura encontram aquele que será o motivo de divisão entre os dois: uma mulher.
O americano paranóico, vendo assassinos em todo o lado, decide matar a civil justificando-se que se trata de mais uma espia ao serviço do império japonês. Logan, vendo nada mais que uma simples mulher, obriga-o a afastar-se selando assim uma rivalidade que irá durar.
O Logan que encontramos nesta mini série de 3 números é o completo oposto daquele que conhecemos. Trata-se de um homem simples, muito tímido e pouco confiante, especialmente com mulheres.

Esta mulher que ele conhece será motivo de mudança. Ela e os acontecimentos do 2º número fazem com que a personagem cresça e amadureça num certo sítio famoso chamado Hiroshima.

O tenente Warren, volta a confrontar a dupla no dia seguinte e no meio da luta entre Logan e o tenente, ocorre aquilo que já todos suspeitavamos desde o o final do 1º número e que dá direito a várias espectaculares cenas muito à semelhança do que pode ser visto no tie-in com Civil War.

Mais não digo porque a estória tem pouco que se lhe diga. Apesar do calibre dos autores envolvidos na mini série, esta não deixa de ter algumas falhas que são de surpreender vindo do escritor que nos trouxe por exemplo Runaways ou o mítico Y: The Last Man.
A leitura torna-se estranhamente rápida e consegue-se despachar estes 3 comics em cerca de 15 minutos. O ritmo em si às vezes também falha e não nos deixamos de perguntar como seria se fosse dada mais tempo para uma revisão.
Além disso, a revelação sobre quem seria essa personagem mistério e o que lhe tinha acontecido é bastante previsível e existe também uma incoerência no argumento. Não queria estar a dar muitos detalhes mas envolve uma personagem que dizia não perceber japonês mas mais tarde dá um argumento que revela afinal ter percebido o que outros tinham dito. Confuso e mostra um grande descuido por parte do argumentista.
Esta estória tinha muito potencial para ser explorado mas na minha opinião falha em muitos pontos.

O traço do Eduardo Risso continua como sempre, simples, eficaz e muito bom com capas excelentes. Está também disponível uma versão desta mini série a preto e branco que deve valer bem a pena pela arte do senhor.

Esta estória tem o selo Marvel Knights simplesmente porque a Marvel ainda não se decidiu por anunciar oficialmente se Logan, durante a 2ª Guerra Mundial esteve no Canadá, França, Alemanha ou Japão. Decidiram antes passar esta estória para fora da cronologia oficial.

E nisto tudo, também não há justificação para o preço de capa inflacionado. A edição é muito boa com uma capa mais grossa que o habitual (como tem sido hábito do selo) mas, ao contrário das outras minis, o número de páginas é baixo e a quantidade de publicidade é maior do que estou habituado a ver num comic (e olhem que 80% do que leio é em comics) e isso estraga bastante a leitura. Estes factores conseguem deixar muito a desejar no preço a pagar pelos comics. Venha o TPB ou o HC.

29 May 2008

Diário de Bordo III - IV FIBDB

O Festival de BD de Beja acabou no último fim-de-semana mas só agora é que está disponível na Centralcomics o meu texto sobre os meus dois dias lá passados. O objectivo inicial do Diário de Bordo era precisamente fazer "reviews" acerca dos festivais de BD nacionais mas na falta deles e da disponibilidade para ir, alarguei-o um pouquinho mais como poderão ver pelo texto da Asa.

Pelo que me disse o director do festival, Paulo Monteiro (os meus agradecimentos, sem o convite dele o mais provável era não ter ido por causa da despesa que é passar um fim de semana fora tão longe), as precisões deles apontavam que iam ter cerca de 6000 visitantes, mais 1000 que o ano passado.
Dave McKean tem destas coisas hehe
Olhar para a prateleira e ver aqueles Mirrormask Illustrated Script e Asilo Arkham e saber que não estão assinados... e ele ainda me ficou com o meu marcador prateado... Mais uma estória a somar aos festivais.

Fica aqui o mais recente Diário de Bordo.


Depois de um fim-de-semana passado em Beja, este Diário de Bordo retrata a minha primeira ida ao Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja que já vai na IV edição. Nunca houve a oportunidade vir a este festival mas este ano, aliando um nome sonante e o facto de ser a minha primeira ida a um festival como autor, não podia faltar.

Depois de duas viagens que duraram ao todo cerca de 5 horas, eis que chego a Beja carregado qual Pai Natal com livros para os autógrafos. Enquanto o festival não abria, houve oportunidade de ver a bem conseguida zona comercial situada no exterior da Casa da Cultura mas abrigada do tempo que prometia ser muito chuvoso. O espaço é bem agradável com o bom tempo alentejano e a sessão de autógrafos era para se realizar lá mas teve que ser movida para a bedeteca porque a temperatura baixou muito.

Depois de aberto oficialmente o festival, ficaram todos entregues às exposições. Destaque para a exposição do Gipi, BRK com algumas pranchas inéditas, João Lemos e o seu número do Avengers: Fairy Tales e, naturalmente, Dave McKean. Esta exposição, que só pecava por ser pequena, mostrava um pouco de todos os seus trabalhos (capas e pranchas de várias BDs) e os diferentes estilos e potencial deste excelente artista. Os originais das diferentes obras expostas iam desde pranchas de Asilo Arkham, Cages e Mr. Punch passando pelas brilhantes capas da série Hellblazer e Sandman, arte do filme Mirrormask e diferentes edições dos títulos em que o autor colaborou.

O festival não se esgotava apenas na Casa da Cultura/Bedeteca de Beja. Devido à demora que houve com os autógrafos que o Dave McKean andava a distribuir, a “tournée” por Beja para abrir as restantes exposições foi, em parte, cancelada. Ainda assim tivemos a oportunidade de ver algumas ao acompanhar o resto do programa.
O jantar no Sábado foi nos claustros do Museu Regional de Beja, um mosteiro desactivado onde na sacristia estão expostos originais da Susa Monteiro.
Depois do jantar, a festa continuou no Museu Jorge Vieira - Casa das Artes com exposição de Pepedelrey e Teresa Câmara Pestana e, para animar, questionário sobre BD.
A noite, já avançada, terminou com a actuação dos Jigsaw na Galeria do Desassossego local que o Dave McKean gostou por lhe fazer lembrar os clubes de Londres dos anos 80.

Esta forma de visitar o festival, que não cabe todo na Casa da Cultura, também é uma excelente maneira de conhecer parte da cidade. Todos os locais com exposições ficam muito próximos uns dos outros podendo ser visitados a pé e tudo sem ter que se pagar um único bilhete. Uma forma de mostrar aos bedéfilos que não conhecem Beja o que a cidade tem para oferecer para, quem sabe, a visitar uma próxima vez.

Já no Domingo foi a nossa oportunidade de nos estrearmos como autores. O projecto dos Murmúrios foi apresentado, teve bom público apesar de muita gente se ter atrasado e o interesse de várias pessoas incluindo o director do festival, Paulo Monteiro que desde já agradecemos o convite.

A nossa apresentação foi seguida de:
- Plano editorial da Kingpin of Comics para 2008;
- Qual Albatroz, uma nova editora que irá lançar o próximo livro do Menino Triste e ReEvolução 01/10 com a presença dos autores;
- Apresentação do livro “De trute ise aute der” e do fanzine/e-zine “Terminal” ambos a cargo de Phermad responsável pelas Edições DrMakete.

Não estando agendado, Dave McKean ainda fez uma muito interessante e demorada retrospectiva de quase todos os seus trabalhos em BD, ilustração e cinema.
Infelizmente não tive oportunidade de ficar para o final pois iria perder a viagem de regresso.

Não querendo tecer nenhuma crítica, não deixo de me perguntar que tipo de afluência teria o festival se um nome tão sonante como o do Dave McKean não estivesse no cartaz. Infelizmente poucas caras novas vêem-se neste tipo de eventos e são estes nomes que chamam fãs dos arredores (Lisboa por exemplo). Ainda assim não deixam de ser louváveis diferentes iniciativas como o torneio de Playstation, projecção de filmes, diferentes workshops e maratonas de BD que chamam outro tipo de público. Não esquecendo os mangakas, ainda há até ao final do festival oficinas de caligrafia japonesa e origami, shiatsu, cerimónia do chá, sessão de anime de 6 horas ininterruptamente com dobragem ao vivo e ainda jantar japonês.
Para os mais novos, aqueles que esperemos que sejam a próxima geração de bedéfilos, o programa é diversificado envolvendo teatro, ilustração e leitura.

O espaço da bedeteca, que antes só tinha visto em fotografias, é muito bem conseguido. Inserido na Casa da Cultura, ocupa apenas uma sala e tem praticamente tudo o que foi editado em Portugal a partir dos anos 70 e onde se incluiu também um belo catálogo de material importado muito diversificado. Esta bedeteca é a prova que não é preciso um espaço autónomo podendo muito bem ser enquadrável num outro qualquer equipamento cultural existente mais abrangente. Um exemplo a seguir por outras localidades, especialmente a norte que nunca viu equipamentos destes nem vê eventos desta importância há alguns anos.
O próprio director do festival foi muito simpático e acessível. Sempre presente era ao mesmo tempo guia, coordenador, … um faz-tudo dentro do festival sempre disponível para qualquer coisa.

O próprio festival é algo completamente diferente do que tenho visto na Amadora. Enquanto um vive para a parte “comercial” onde o importante é o triângulo exposição -autor - espaço comercial, neste festival, não deixando de parte estes três alicerces, vive-se um ambiente de maior “intimidade e familiaridade” devido à quantidade de caras conhecidas e à menor dimensão do mesmo. É um festival que aposta num bom ambiente onde numa hora se está numa fila de autógrafos para um autor como na outra já estamos numa alegre conversa com o mesmo numa exposição ou esplanada.