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13 January 2011

News from the front II

No passado mês de Julho estive 3 semanas em semi-trabalho na Dinamarca na Bang & Olufsen onde ajudei a criar um produto que está em processo de registo de patente. Saiu uma pequena notícia numa newsletter da Universidade do Minho e o assunto parecia ter ficado por ali.
Graças ao espectacular trabalho do Gabinete de Comunicação e Imagem da UM, a notícia tem aparecido em tudo o que é media cá do Norte. Deixo-vos os links onde poderão encontrar muita informação sobre aquilo que pouco posso falar.

Em Português (Dinamarquês e Inglês mais abaixo):
Universidade do Minho
Mais Actual
Mundo Universitário
Correio do Minho

Amanhã (dia 13 Janeiro) estarei nos vossos aparelhos de Telepatia Visual (aka TV) no Porto Canal a partir das 20h para falar de comandos remotos que não têm botões ou ecrãs tácteis (já consigo ver os bocejos hehe). Ainda vou levar uma ou outra antologia onde participo a ver se consigo falar um pouco das minhas BDs.
Para quem não encontra o canal na grelha do televisor (como vos compreendo), podem ver aqui em directo.
E nos entretantos a BD fica esquecida por mais um ou dois meses. É só trabalho (universidade e contos) a acumular…
In the past month of July I was semi-working for three weeks in Denmark at Bang & Olufsen where I helped create a product that is in the process of patent register. A small news came up in a newsletter of University of Minho and the subject appeared to have died. 
Now, thanks to the spectacular work of the Communication Office from UM, the news has appeared on every form of media from the North of Portugal. I leave you with the links where you can find much information about what I can´t say much.

In Danish (Portuguese above):

In English (Portuguese above):

Tomorrow (January 13) I'll be inside your Visual Telepathy devices (aka TV) in Porto Canal at 20PM to talk about remote controls that have no buttons or touch screens (I can already see the yawning hehe). I’ll try to take one or two anthologies in which I participate to see if I can speak a little of my comics. For those who can’t find the channel on the TV grid (yeah, easy to miss), you can see here live. And in the meantime the comics are once again forgotten for one or two months. Work (university and comics) is pilling up...

26 July 2009

Remodelação e recomendação

Bons olhos vos vejam neste espaço esquecido. Quando lerem isto já estarei na romaria habitual para terras do sul e, portanto, deixo-vos com algumas remodelações na casa que bem precisa.

A Centralcomics recentemente mudou por completo o portal e, portanto, perderam-se textos e entrevistas que na altura se fizeram.

Para já estão recuperados os seguintes textos:
Entrevista com David Soares
Diário de Bordo I - FIBDA 2007, A Maioridade?
Diário de Bordo III - IV FIBDB
Diário de Bordo IV - Viñetas desde o Atlántico, um festival de lições
Diário de Bordo V - FIBDA 2008

À semelhança do Notas Bedéfilas, também irei programar uma série de posts automáticos para se entreterem com 2 novas rubricas (uma delas só a conhecerão quando a outra acabar).


E puxando ainda mais a brasa à minha sardinha, recomendo a compra do 6º volume da série Venham+5, um laboratório de autores, estilos e pequenas histórias onde o vosso anfitrião tem o conto de 4 páginas, Uma Última Contenda, com o desenhador Véte. Não saiu exactamente como planeado mas espero que entendam e gostem.
Dos outros contos não posso opinar porque vim de Beja sem nenhum exemplar para mim. Ofereci uma cópia à Sierra (deixa cá ver se ela se lembra de mim no futuro) Hahn e outra ao Gary Erskine para agradecer os 2 posters que ele me deu no final do festival (oh yeah, poster dos Tranformers e Dan Dare à borlucha) e não tive oportunidade (nem coragem) de pedir mais cópias ao Paulo Monteiro.

Não partam nada enquanto estou fora!

20 March 2009

Interviewing Paul Duffield

The majority of you probably don’t recognize the name but you should. Mangaka with some published works, about an year ago he was shoot into fame when he was chosen to illustrate Freakangels, a webcomic created by the legendary Warren Ellis.

A grande maioria não deve reconhecer o nome mas devia. Mangaka com alguns trabalhos profissionais publicados, há certa de um ano atrás foi catapultado para o estrelado quando foi escolhido para ilustrar Freakangels, um webcomic criado pelo lendário Warren Ellis.

Freakangels is a 6 pages free weekly webcomic that has been published in TPB by Avatar and has a legion of thousands of fans worldwide. The 2nd volume is about to be published and Centralcomics couldn’t miss the opportunity to know the path of this rising star and ask his opinion about the controversial issue: comics vs. webcomics.

Freakangels é um webcomic semanal de 6 páginas gratuito que tem sido publicado em trade pela Avatar e que conta uma legião de milhares de fãs em todo o mundo. O 2º volume está prestes a ser publicado e a Centralcomics não podia perder a oportunidade de conhecer melhor o percurso desta estrela em ascensão e pedir a sua opinião acerca do polémico tema comics vs. webcomics.

Diogo Campos: For those who don't know Freakangels (and should be reading it because it's very good and FREE!), can you describe it in few words?
Paul Duffield:
Freakangels is a sort of steampunk sci-fi comic set in a post-crash, half drowned London. The central characters are the Freakangels clan,
a group of people who were all born at exactly the same moment, 23
years ago, with strange powers. They work to keep their part of London
functioning in a world where technology must be reinvented, and
survival is no longer a given.

Diogo Campos: Para aquele que não conhecem Freakangels (e que deviam ler porque é muito bom e GRÁTIS!), podes-nos descrevê-lo em poucas palavras?
PD:
Freakangels é uma espécie de BD de ficção científica steampunk passada numa
Londres meia afogada. Os personagens principais são o clã Freakangels, um grupo de pessoas que nasceram exactamente ao mesmo tempo, 23 anos atrás, com estranhos poderes. Eles trabalham para manter a sua parte de Londres a funcionar num mundo onde a tecnologia teve que ser reinventada e a sobrevivência não é um dado adquirido.




DC: How you and Warren did came upon with that kind of layout? It seems to be challenge telling a story always in the same format, the 4 panel page.
PD:
The panel layout was decided upon by Warren, since it was much easier to digest on a screen. It's actually easier for me, since I can treat each panel like a frame from a storyboard, and really put a lot of effort into each illustration without worrying about designing a complex layout as well.

DC: Como é que tu e o Warren chegaram àquele tipo de layout? Parece ser um desafio contar uma história sempre no mesmo formato, uma prancha de 4 vinhetas.
PD: O layout foi decidido pelo Warren já que era muito mais fácil de ‘digerir’ no monitor. Na verdade é mais fácil para mim, já que posso tratar cada vinheta como um frame de um storyboard, e dedicar-me realmente a cada ilustração sem me preocupar em planear um layout complexo.



DC: Since you're on the front line of webcomics with the wide known Freakangels, how do you see the future of comics in general?
PD:
I'm not sure at the moment. Webcomics aren't at the stage where they can easily replace print comics, and won't be for a long time in my opinion. At the same time, I think print comics have been stagnating in quality for a long time, and really need a big push to help them realise their potential and gain a wider audience with a wider range of genres. I know for sure that creators and publishers need to be trying as hard as possible to innovate, and not just settling for pleasing existing fans.

DC: Como estás na linha da frente dos webcomics com o bastante conhecido Freakangels, como é que vês o futuro dos comics em geral?
PD:
De momento não tenho a certeza. Webcomics não estão numa fase onde possam facilmente substituir os comics impressos, e não estarão por muito tempo na minha opinião. Ao mesmo tempo, penso que os comics impressos têm vindo a estagnar em termos de qualidade há já algum tempo, e realmente precisam de um empurrão que os ajude a perceberem o seu potencial e ganhar uma mais vasta audiência com uma ampla gama de géneros. Sei com toda a certeza que os criadores e editores precisam de tentar inovar o mais possível e não se contentarem simplesmente em agradar os fãs existentes.



DC: What comics do you usually read?
PD:
I'm mostly a mangá fan actually! I like to find non-mainstream mangá to read at the moment, and I'm really getting into western comics properly for the first time.

DC: Que BDs é que costumas ler?
PD:
Na verdade sou um fã de mangá! De momento, gosto de descobrir mangá fora do mainstream para ler e estou a entrar na banda desenhada ocidental propriamente pela primeira vez.



DC: Do you have any authors and/or titles you prefer?
PD:
My favourite authors at the moment are Jiro Taniguchi, Taiyo Matsumoto, Erica Sakurazawa, Miou Takaya & Osamu Tezuka. I also really like Craig Thompson, and I'm looking forward to Habibi.

DC: Tens alguns autores e/ou títulos que prefiras?
PD:
Os meus autores favoritos de momento são Jiro Taniguchi, Taiyo Matsumoto, Erica Sakurazawa, Miou Takaya & Osamu Tezuka. Também gosto muito de Craig Thompson e estou ansioso pelo Habibi.



DC: How was your first experience with comics? When you were younger, did you usually read comics?
PD:
I've read comics for most of my life, but I didn't really get into them in a big way until I discovered mangá as a young teenager. The mangá I read then were the first mature and complex storylines that I'd encountered in comics, and they really blew me away. From then on what was just a casual interest became an obsession.

DC: Como é que foi a tua primeira experiência com banda desenhada? Quando eras mais novos, costumavas ler BD?
PD:
Eu li BD durante a maior parte da minha vida mas nunca me dediquei até ter descoberto mangá quando era um adolescente. As mangás que lia na altura foram as primeiras histórias maduras e complexas que encontrei na BD e fiquei estupefacto com elas. A partir daí, o que era apenas um interesse casual tornou-se uma obsessão.



DC: So, your main (and only?) source is mangá? That's interesting because you have this style on Freakangels that, I think, it combines mangá with comics and European comics/franco-belgian. How do you define your work, especially on Freakangels?
PD:
Well, it turns out that after I'd really got into mangá, I'd read the small selection of very well-known titles that were on the shelves at the time, and I started looking for more obscure mangá artists. It just happened that most of the obscurer artists I encountered such as Taiyo Matsumoto, Jiro Taniguchi and Koji Morimoto were highly influenced by French and European comics themselves, and that's really where my current style originates from. With Freakangels I also consciously went with something a little more European than my previous work, since that euro-mangá look was exactly what Warren was going for.

DC: Então, a tua principal (e única?) fonte é mangá? Isso é interessante porque tens um estilo no Freakangels que, penso eu, combina mangá com comics e BD europeia/franco-belga. Como é que defines o teu trabalho, especialmente no Freakangels?
PD:
Bem, acontece que depois de ter entrado realmente na mangá, eu tinha lido uma pequena selecção de títulos muito conhecidos que estavam nas estantes na altura, e comecei a procurar por autores de mangá mais obscuros. Aconteceu que a maioria dos artistas que encontrei como Taiyo Matsumoto, Jiro Taniguchi e Koji Morimoto foram eles próprios altamente influenciados pela BD francesa e europeia e é daí que o meu actual estilo é originário. Com Freakangels eu também fui conscientemente para algo um pouco mais europeu que os meus trabalhos anteriores já que um look euro-mangá era exactamente o que o Warren queria.



DC: How and when did you decide you wanted to do comics for a living?
PD:
I think it's been something I've wanted to do for a long, long time. I've been drawing since I could first hold a pencil, and drawing comics since I first knew what they were, so it was just a natural progression. The only other artform that I'm equally attracted by is animation, which I studied at University.

DC: Como e quando é que decidiste que querias viver a fazer BD?
PD:
Penso que tem sido algo que eu queria fazer há muito, muito tempo. Eu desenho desde que consegui segurar um lápis, e desenho BD desde a primeira vez que descobri o que era, por isso foi apenas uma progressão natural. A única outra forma de arte que eu estou igualmente atraído é animação que estudei na Universidade.



DC: Do you have any advice to young creators who want to create their own projects?
PD:
Yes, definitely and it's quite simple really. Start small! A lot of beginners start with a huge idea or an epic storyline that they want to create, but more often than not it never gets finished. The best thing to do is to keep your massive ideas in note form, and practice on self-contained short stories, between maybe 5 and 10 pages. There are three advantages to this:
Firstly, it's great practice, and learning to keep your storytelling concise and clear (which it needs to be to tell a successful short story) is a very useful skill that will help you later in long-form storytelling.
Secondly, it's very uplifting to actually finish something, and it's a great sense of achievement that will help you keep your enthusiasm.
Thirdly, the first place most people get published is in anthologies of short stories, and having completed projects means you have something to give to publishers, and something that will fit easily in your portfolio for people to read and see your skills.

DC: Tens algum conselho para jovens criadores que queiram criar os seus próprios projectos?
PD:
Sim, definitivamente, e é bastante simples na verdade. Comecem pequeno! Muitos dos iniciantes começam com uma ideia enorme ou uma narrativa épica que querem criar mas é mais frequente que nunca a terminem. A melhor coisa a fazer é manterem as vossas ideias maciças em forma de notas e praticarem histórias curtas auto-conclusivas, entre talvez 5 e 10 páginas. Existem três grandes vantagens nisto:
Primeiro, é um bom treino, e aprender a manter as vossas histórias concisas e claras (que são necessárias para contar uma história curta com sucesso) é uma destreza muito útil que vos vai ajudar mais tarde em narrativas mais longas.
Em segundo lugar, é muito gratificante acabar realmente alguma coisa, e é uma grande sensação de realização que vos vai ajudar a manter o entusiasmo.
Terceiro, o primeiro sítio onde a maioria das pessoas é publicada é em antologias de histórias curtas, e tendo completado vários projectos significa que têm algo para dar às editoras, e é algo que cabe facilmente no vosso portfolio para as pessoas lerem e verem o vosso talento.



DC: Basically, what you recommend is the way you used. How was it like to be an unknown artist and then "bang!", working on a groundbreaking project with the legendary Warren Ellis?
PD:
I had done a few projects before Freakangels that were quite well distributed in the UK (including my first full book, which was mangá adaptation of Shakespeare's The Tempest). That being said, it was really something to suddenly be exposed to the international comics scene working on a project with such a well known writer! I'm still pretty shocked that I managed to get the job at all, and the exposure it's given me has been fantastic. Even more than a year into the project, I don't think it's completely sunk in!

DC: Basicamente, o que recomendas é o caminho que usaste. Como é que foi seres um autor desconhecido e de repente “bang!”, a trabalhar num projecto pioneiro com o lendário Warren Ellis?
PD:
Eu fiz uma série de projectos antes de Freakangels que foram bem distribuídos no Reino Unido (incluindo o meu primeiro livro que foi uma adaptação para mangá de A Tempestade de Shakespeare). Tendo dito isto, foi algo realmente extraordinário ser exposto na cena dos comics internacionais trabalhando num projecto com um tão conhecido escritor! Ainda estou em choque por ter conseguido o trabalho e a exposição que me tem dado tem sido fantástica. Mesmo após um ano neste projecto, não acho que ainda tenha realmente assentado!



DC: You do mangá workshops and tutorials, you have a project with Kate Brown, a "how to draw" project and on top of that, you do 6 pages per week for Freakangels. How can you keep up?
PD:
I also do a series of covers for Anna Mercury, another project that Warren's working on. I think the honest answer is sometimes I can't keep up! Everything else I do has to take a backseat to Freakangels, since that takes up so much of my time, but I try and find time to work on my other projects when I can, since I'm creatively very restless. I get itchy fingers if I haven't been drawing or writing for too long!

DC: Tu fazes workshops e tutoriais de mangá, tens um projecto com Kate Brown, um projecto “how to draw” e em cima disto tudo, fazes 6 páginas por semana para Freakangels. Como é que consegues manter o ritmo?
PD:
Também faço uma série de capas para Anna Mercury, outro projecto que o Warren está a trabalhar. Eu acho que a resposta mais honesta é que não consigo! Tudo o que faço tem que ficar em segundo lugar em relação ao Freakangels já que me consome imenso tempo, mas eu tento e encontro tempo para trabalhar nos meus outros projectos quando posso, já que sou incansável criativamente. Fico com comichão nos dedos se não desenho ou escrevo durante muito tempo!



DC: Freakangels is on its 48th episode and we're barely past the first 24 hours. How many episodes (years?) until we start to see the end of the tunnel?
PD:
Wow, I have no idea! I think Warren sees it as at least 10 volumes, but I may be wrong. I know for sure that it doesn't have a scheduled end at this point, and is likely to go on for as long as Warren wants to keep it running.

DC: Freakangels vai no seu 48º episódio e mal passamos das primeiras 24 horas. Quantos mais episódios (anos?) até começarmos a ver o fim do túnel?
PD:
Uau, não faço ideia! Penso que o Warren vê isto como pelo menos 10 volumes mas posso estar enganado. Sei com toda a certeza que não tem um fim agendado neste momento e é muito provável que continue enquanto o Warren quiser mantê-lo a correr.



DC: At this moment, volume 2 is wrapping up. Can you reveal something of the next volume?
PD:
I have a strong feeling we'll be seeing some more diverse locations soon. So far everything's been set in London, but there's a whole broken world out there to explore!

DC: Neste momento, o volume 2 acabou. Podes revelar-nos alguma coisa sobre o próximo volume?
PD:
Eu tenho a forte impressão que em breve vamos ver localizações mais diversas. Até agora tudo tem acontecido em Londres mas existe todo um mundo devastado lá fora para conhecer.



DC: Finally, any last words to our readers?
PD:
Well, hope you enjoy Freakangels, and thanks for taking the time to
read the interview! :) I'm happy to hear any feedback that readers
have, so if you want to get hold of me, just visit freakangels.com or
spoonbard.com

DC: Finalmente, algumas palavras para os visitantes da Centralcomics?
PD:
Bem, espero que gostem de Freakangels e obrigado por terem lido a entrevista! :)
Fico contente se ouvir algum feedback que os leitores tenham, por isso se quiserem falar comigo, simplesmente visitem freakangels.com ou spoonbard.com


If you want to use this interview, be my guest but please let me know. My contact is in my profile.

19 February 2009

Interviewing Pat Mills

Pat Mills, personality that goes unnoticed to the comics readers, is known as the "godfather of British comics." Founder of the 2000 AD magazine that has made known to the world many respected artists, Pat is the creator of Marshal Law (with Kevin O'Neill), Requiem: Chevalier Vampire (with Olivier Ledroit), writer of Judge Dredd, among many other works.
Irreverent and somewhat controversial, Centralcomics took advantage of his recent presence of the author in FIBDA, in order to do an interview and discuss the current tendency of the comics market.

Pat Mills, figura que passa algo despercebida aos leitores de comics, é conhecido como o “padrinho dos comics britânicos”. Fundador da revista 2000 AD que deu a conhecer ao mundo inúmeros artistas conceituados, Pat é criador da série Marshal Law (com Kevin O’Neill), Requiem: Chevalier Vampire (com Olivier Ledroit), escritor do Judge Dredd, entre muitas outras obras.
Irreverente e algo polémico, a Centralcomics aproveitou a recente presença do autor no FIBDA para lhe cravar uma entrevista e discutir a actual tendência do mercado bedéfilo.



Diogo Campos: You're known has the "godfather of British comics". You created 2000AD which opened the doors to the British invasion of American comics where many authors like Garth Ennis, Sean Phillips, Alan Moore, Warren Ellis or Neil Gaiman first showed up to a vast audience. How do you see yourself as a historical character on the comics history?
Pat Mills:
2000AD was a European influenced comic and I prefer European comics, hence why I write Requiem for France. So the term Godfather is kind of misleading as it suggests a connection with this move to America which I don't relate to. Although I have worked for America, I don't like super heroes because they are mainly phoney, a travesty of the meaning of the word hero, and I equally dislike most of Vertigo which is "corporate cool", rather than genuinely cool. Hence why I write Marshal Law - super hero hunter. So I see myself as an Outsider, moving in the opposite direction to everyone else, a direction that is better for my soul, if not my bank balance.

Diogo Campos: És conhecido como o padrinho dos comics britânicos. Criaste a 2000AD que abriu portas para a invasão britânica dos comics americanos onde muitos autores como Garth Ennis, Sean Phillips, Alan Moore, Warren Ellis ou Neil Gaiman foram apresentados pela primeira vez a uma vasta audiência. Como é que te vês sendo uma figura histórica dos comics?
Pat Mills:
A 2000AD foi um comic com influências europeias e eu prefiro comics europeus, daí ter escrito o Requiem para o mercado francês. Por isso, o termo “padrinho” é um pouco enganador já que sugere uma ligação com esse movimento para a América com o qual eu não me relaciono.
Apesar de ter trabalho para os EUA, não gosto de super heróis porque são travestis do significado da palavra herói. E não gosto igualmente da Vertigo por ser “corporative cool” em vez de “genuinamente fixe”. Daí eu ter escrito o Marshal Law – caçador de super heróis. Por isso sinto-me de certa forma afastado desses movimentos, seguindo numa direcção oposta à de toda a gente, uma direcção que é a melhor para a minha alma, se não para a minha conta bancária.



DC: Now that I think of it, even Vertigo doesn't dare to do "certain things" that are common in French comics. It's the self censorship that never abandoned American comics?
PM:
Well observed.

DC: Agora que penso nisso, mesmo a Vertigo não se atreve a fazer “certas coisas” que são comuns na banda desenhada francesa. Será a auto censura nunca abandonou os comics americanos?
PM:
Bem observado.



DC: What do you think is the reason?
PM:
It's part of a big corporation. I have occasionally raised genuinely cool but very serious issues for stories in their direction. Negative or No response.

DC: Qual te parece ser a razão?
PM:
A Vertigo faz parte de uma grande corporação. Ocasionalmente já lhes enviei ideias genuinamente fixes mas sérias para histórias na direcção deles. Acabei por obter respostas negativas ou mesmo nenhuma resposta.



DC: Garth Ennis's The Boys was turned down by Vertigo before Dynamite picked it up for instance. Maybe I’m not paying enough attention but it seems all the publishers are always a bit “careful” with what they launch. Do you think even the small ones have the same corporative issue?
PM:
Possibly. The days when American comics did really "brave" material are long gone. Violent isn't the same as brave.
E.G. Last Gasp American comics in the 70s were the first to expose the Karen Silkwood affair. That is true bravery!

DC: The Boys, do Garth Ennis, foi recusado pela Vertigo antes da Dynamite ter pegado nele por exemplo. Talvez não esteja a prestar atenção mas parece que todas as editoras têm um certo “cuidado” com aquilo que publicam. Achas que até as pequenas editoras têm os mesmos “receios” que as grandes?
PM:
Possivelmente. Os dias em que os comics americanos produziam material “arrojado” há muito que se foram. Violência não é o mesmo que coragem e bravura.
Por exemplo, a Last Gasp American comics, nos anos 70, foram os primeiros a expor o caso Karen Silkwood [*]. Isso sim é verdadeira bravura!



DC: Moving on to a general idea, how do you see the comics market?
PM:
Very conservative in Britain and America. Innovative in Europe - although sometimes I get the feeling European artists and writers are overly influenced by UK and US and France when their own culture has as much or more to offer

DC: De um modo geral, como é que vês o mercado bedéfilo?
PM:
Muito conservador no Reino Unido e na América. Inovador na Europa – embora às vezes eu tenha a sensação que os artistas e escritores europeus são demasiado influenciados pelo Reino Unido, EUA e França quando a sua própria cultura tem tanto ou mais para oferecer.



DC: What do you think will be the future of comics?
PM:
I think they are booming. But they have to less to actually say now because we live in a very conservative decade

DC: Qual achas que irá ser o futuro da banda desenhada?
PM: Acho que se está a expandir. Mas agora têm menos para dizer porque vivemos numa década muito conservadora.



DC: Do the American publishers still track down creators from 2000AD?
PM:
I'm sure they do. But this last question implies there is some great achievement if they do. Why not French publishers? Why do we have to be tracked down anywhere? What about if we are already where we want to be? The world is far too American orientated and we need to resist neo-colonialism. Leave that to Tony Blair who - to my country's shame - was so happy to kiss Bush's ass. In comics, we don't have to do the same.

I will give you an example:
A very important American publisher "tracked down" an artist on one of my British stories and wanted him to dump my story and work for them. The artist said no to them. They said - but we can give you more money. He said no again. They were angry because the dollar didn't buy him. He preferred to work for Britain. He preferred to work on my story because he cares about the story and about art. The dollar does not always win.

These are the things we as Europeans should be celebrating rather than the constant admiration for American corporate comics.

We should be equal partners, treated with equal respect. The best way to achieve this is to take pride in our European culture and our own comics. I loved the Portuguese comics I saw when I was over in Lisbon. They were great. But I fell asleep at an editorial meeting of Marvel Comics in New York once. Seriously! Super Heroes! What is all the fuss about? Marshal Law needs to pay them all a visit.

DC: As editoras americanas ainda vão à procura de criadores da 2000AD?
PM:
Tenho a certeza que sim. Mas esta questão implica que exista algum grande feito se são escolhidos. Porque não editoras francesas? Porque é que temos de ser repescados de algum sítio? E se nós estivermos exactamente onde gostamos de estar? O mundo é demasiado orientado para os americanos e nós temos que resistir a esse neo-colonialismo. Deixem isso para o Tony Blair que – para vergonha do meu país – esteve contente em lamber as botas do Bush. Na banda desenhada não precisamos de fazer o mesmo.

Vou dar-te um exemplo.
Uma importante editora americana “descobriu” um artista de uma das minhas estórias britânicas e queria que ele largasse a minha história e fosse trabalhar para eles. Ele disse que não. Eles disseram: “mas nós podemos dar-te mais dinheiro”. Ele disse não novamente. Eles ficaram zangados porque o dólar não o comprou. Ele preferiu trabalhar para o Reino Unido. Ele preferiu trabalhar na minha estória porque se preocupa com a estória e arte. O dólar nem sempre ganha.

Estas são as coisas que nós como europeus devíamos celebrar em vez da constante admiração pelos “corporate comics” americanos.

Deveríamos ser parceiros iguais, tratados com o igual respeito. A melhor maneira de atingir isto é ter orgulho na nossa cultura europeia e nas nossas BDs. Eu adorei as BDs portuguesas que vi quando estive em Lisboa. Eram altamente. Mas já adormeci uma vez numa reunião editorial da Marvel Comics em Nova Iorque. A sério! Super heróis! O que há de tão especial neles? O Marshal Law precisa de fazer-lhes uma visita!




DC: I’m glad you enjoyed our comics. Was there anyone or anything that caught your attention?
PM:
Yes, the comic strip about TB as the enemy in a football game. I thought that was amazing.

DC: Estou contente que tenhas gostado das nossas BDs. Houve alguém ou algo que te tenha chamado a atenção?
PM:
Sim, a tira acerca da tuberculose como o inimigo num jogo de futebol. Achei que era espantoso.



DC: Well it’s a common thing the American publishers track down authors from other smaller publishers. The small ones have the hard work launching someone’s career and when they do, the major ones try to pick them up.
There’s this general idea that the pinnacle of a comics artist is working for the 3 or 4 major publishers.
PM:
In Britain - yes. But in Europe working for the top French publishers is the objective. So artists in Poland and Serbia would want to work for France - Soleil, Dargaud etc. - rather than the States.

We have to get away from this idea that the world revolves around America.

For example in Berlin... a popular comic-based Hollywood movie came out , but my German film-student friends had never heard of it the week it was Number Three in the German charts. They were far more interested in European cinema. I am sure they are not alone.

DC: Também é normal as editoras americanas procurarem autores de outras editoras mais pequenas. Estas têm todo o trabalho de lançar a carreira de alguém e, quando o fazem, vêm as grandes apanhá-los.
Existe uma ideia geral que o pináculo da carreira de um artista de BD é trabalhar para as 3 ou 4 maiores editoras.
PM:
No Reino Unido – sim. Mas na Europa, trabalhar para as grandes editoras francesas é o objectivo. Por isso é que artistas da Polónia e Sérvia prefeririam ir trabalhar para França – Soleil, Dargaud, etc. – do que para os Estados Unidos.

Temos que nos afastar da ideia que o mundo gira à volta da América.

Por exemplo, em Berlim… um filme de Hollywood baseado num comic popular saiu, mas os meus amigos alemães estudantes de cinema nunca tinham ouvido falar dele na semana em que o filme ficou em 3º lugar nos tops alemães. Eles estavam muito mais interessados no cinema europeu. Estou certo de que eles não estão sozinhos.



DC: They give you more audience and apparently pay more but there are other alternatives. 2000AD seems to be one and like 2000AD, there are other magazines and publishers looking for new people. For those who are already out there trying to be noticed, what can you recommend so they can move on to higher grounds?
PM:
If you are an artist - work for France. If you are a writer - find an artist and work for France. But it's just as tough as the States... However, anyone who has talent will eventually find a home.

DC: Eles dão-te mais público e aparentemente pagam mais mas existem outras alternativas. 2000AD parece ser uma delas e tal como a 2000AD, existem outras revistas e editoras à procura de nova gente. Para aqueles que estão actualmente a tentar ser notados, o que podes recomendar para que possam mover-se para níveis mais altos?
PM:
Se és um artista – trabalha para a França. Se és um escritor – encontra um artista e trabalha para a França. Mas é tão difícil como nos Estados Unidos… Apesar disso, qualquer um com talento consegue eventualmente encontrar uma casa.



DC: Of all the things, why comics?
PM:
Me? I guess cos I can say the things I want to say

DC: De todas as coisas, porquê comics?
PM:
Eu? Acho que é porque posso dizer as coisas que quero dizer.



DC: But how and when you did you decide you wanted to do comics for a living? What was your first experience with comics?
PM:
When I worked for a publishers who produced comics. Previously, as a kid, I had no real experience of comics.

DC: Mas como e quando é que decidiste que querias viver a fazer BD? Qual foi a tua primeira experiência com BDs?
PM:
Quando trabalhei para uma editora que produzia comics. Antes, como criança, não tive nenhuma experiência com BDs.



DC: What comics do you usually read?
PM:
French or Italian comics

DC: Que BDs costumas ler?
PM:
Banda desenhada francesa ou italiana.



DC: Do you have any authors and/or titles you prefer?
PM:
Bilal. Druillett. Conquering Armies.

DC: Tens algum autor e/ou série que prefiras?
PM:
Bilal. Druillett. Conquering Armies.




DC: Besides John Wagner, you were one of the creators who most contributed to the Judge Dredd’s character and world early conceptions. You’ve watched Dredd’s world start from scratch so, here's the inevitable question, what do you think of the movie and Stallone as Dredd?
PM:
Not as bad as people said. There are worse movies out there!

DC: Além de John Wagner, tu foste um dos criadores que mais contribuiu para a personagem Judge Dredd e para a caracterização do seu universo. Tu viste o mundo do Dredd começar do nada e por isso, fica aqui a inevitável pergunta, o que achas do filme e do Stallone como Dredd?
PM:
Não é tão mau como as pessoas pensam. Há filmes muito piores por aí!



DC: Many people (like me) are eager to know: when we'll see a Requiem compilation in English?
PM:
Oh, yeah and me! It's a slow process. Panini UK are interested, possibly tieing in with Paninis elsewhere. But Heavy Metal are currently doing US edition.
Finally!!

DC: Muitas pessoas (como eu) estão ansiosas por saber: quando é que vamos ter uma compilação do Requiem em inglês?
PM:
Oh, sim e eu! É um processo lento. Há interesse por parte da Panini UK e possivelmente das restantes Paninis. Mas a Heavy Metal está neste momento a fazer a edição americana.
Finalmente!



DC: And what about Claudia Chevalier Vampire? Will it be collected along with Requiem?
PM:
Separate collection in France. Also in States

DC: E em relação à Clauda Chevalier Vampire? Também será compilada junto com o Requiem?
PM:
Colecções separadas em França. O mesmo nos Estados Unidos.



DC: Can you reveal something of your future projects? Anything new we should be looking forward to?
PM:
More of the same. In France, Sha will be reprinted shortly. In Britain... I write various 2000AD characters: Savage, Judge Dredd, ABC Warriors, Greysuit, Defoe, Slaine.
I also write audio plays for Doctor Who and am working on my third one soon
And next year Top Shelf will publish a Marshal Law Omnibus.

DC: Podes revelar-nos alguma coisa dos teus projectos futuros? Alguma coisa que deveríamos estar atentos?
P:
Mais do mesmo. Em França, o Sha vai ser reeditado brevemente. No Reino Unido… escrevo várias personagens para a 2000AD: Savage, Judge Dredd, ABC Warriors, Greysuit, Defoe, Slaine.
Também escrevo peças do Doctor Who para a rádio e estou neste momento a trabalhar na minha terceira. E este ano a Top Shelf irá publicar Marshal Law Omnibus.



DC: Do you have any advice to young creators who want to create their own projects?
PM:
Write and draw from the heart about something you really know about. Use Writer's Journey as your guide.
Good luck!

DC: Tens algum conselho para os jovens artistas que querem criar os seus próprios projectos?
PM:
Escrevam e desenham do coração acerca de algo que realmente saibam e conheçam. Usem o The Writer’s Journey como guia.
Boa sorte!


[*] Activista sindical americana suspeita de ter tido uma morte arranjada pela companhia de energia nuclear onde trabalhava quando investigava denúncias de irregularidades.



If you want to use this interview, be my guest but please let me know. My contact is in my profile.

Photo by Gabriel Martins.

06 February 2008

Entrevistando David Soares

Esta entrevista realizada em Janeiro de 2008 esteve durante muito tempo disponível no portal Centralcomics. Aquando da sua remodelação, entre vários textos, ficou perdida esta entrevista ao escritor e desenhador David Soares.
Na altura, durante o período que durou a disponibilização da entrevista, O David anunciou um novo romance (hoje conhecido como Lisboa Triunfante) e que está a escrever duas novas BDs, uma delas desenhada por ele e a outra já anunciada com o título de Mucha editada pela Kingpin Books. O anúncio foi feito depois da entrevista estar concluída e antes de ter sido disponibilizada e por esta razão, estas obras não foram referidas na presente entrevista.

Com o recente lançamento de "A Conspiração dos Antepassados", que em menos de um mês já esgotou a 1ª edição, David Soares estreia-se na escrita de romances. Este lançamento e o recente anúncio de que está a preparar duas novas bandas desenhadas da sua autoria, uma das quais desenhada por ele, foi motivo mais que suficiente para uma pequena grande entrevista em exclusivo para a Centralcomics.


Diogo Campos: Para autor nacional, pode-se dizer que é um autor “completo”. Fazes banda desenhada (tanto argumento como desenho), escreves nos mais variados formatos (contos para diversas antologias, romances) e já fizeste um áudio book acerca de Lisboa. O que achas que mais te influenciou para seres tão polivalente?
David Soares:
É uma boa pergunta. Acho que aquilo que mais me influencia a experimentar diferentes formas de expressão é perceber até que ponto podem chegar as possibilidades da linguagem. Todos os trabalhos que já realizei têm em comum o facto de serem narrações, histórias; mesmo que sejam contadas de maneiras distintas, a matéria-prima é sempre a mesma: a linguagem, as palavras e os ritmos. Eu gosto de autores interdisciplinares que provam ser hábeis em cruzar diferentes artes ou áreas de interesse em criações credíveis. Certamente que isso também me influencia. É, por outro lado, um modo saudável de me manter em forma, evitando a repetição e percebendo como os assuntos podem ser observados de ângulos inéditos: aquilo que faço em banda desenhada vaza para a prosa e vice-versa. Ler aquilo que escrevo em voz alta, uma prática que trouxe da minha experiência em spoken-word, é um guia precioso para gerar essa tal diversidade, para garantir o dinamismo da escrita. Se não gosto da sonoridade das frases, mudo-as. Aprendi a confiar no meu ouvido.

Acredito que o artista não pode cair na inércia, e não existe nada de errado em ginasticar o talento em âmbitos variados. Os indivíduos criativos, que trabalham numa actividade artística, normalmente mantêm uma rede de interesses diversificados. Em Lisboa, nas décadas de vinte a setenta, mesmo sob o jugo censório da polícia política do Estado Novo, os artistas reuniam-se em tertúlias para trocar experiências e formar sinergias. Hoje não se vê isso com tanta frequência. Há a tertúlia mensal organizada pelo Geraldes Lino, por exemplo, mas acaba por ser um encontro onde apenas participam figuras associadas à banda desenhada, é raro veres lá gente de outros campos artísticos. O universo da criação artística, como todas as áreas da vida, especializou-se nos últimos vinte anos, tornou-se mais depurado, mais insulado. Lembro-me da minha passagem pelo curso de ilustração do Ar.Co, escola interdisciplinar, e como também não existiam ali permutas entre os alunos dos vários cursos. Não que isso seja só por si mau, mas é preciso não deixar de ser curioso e tentar sempre acompanhar o que é feito em outras áreas que não a nossa.


DC: Como é que te surgiu a paixão pela escrita e pela banda desenhada? Uma coisa levou à outra?
DS:
Eu aprendi a ler antes de ir para a escola com os livros de banda desenhada da Disney e lembro-me de começar a fazer BD desde essa altura, desenhando em cadernos e depois arrancando as folhas e agrafando-as com uma capa. Fiz muitos livros artesanais de BD e ainda tenho bastantes guardados. Nessa altura inventava histórias no modelo Disney com personagens antropomórficos: coelhos, pintos, monstros esquisitos. Quando entrei para o primeiro ano de escolaridade passei um mau bocado porque a professora não gostou nada do facto de eu já saber ler. Foi a partir daí que percebi o poder da autoridade em cercear a criatividade; talvez não de um modo consciente, como o entendo agora, mas percebi logo que aquilo não estava certo. Fui um aluno muito mal-comportado, na primária e ainda mais no liceu, mas como sempre tive boas notas, principalmente a português e a história, os professores não podiam reclamar muito. Olhando para trás, e somando essas experiências ao conhecimento da sociedade que tenho presentemente, penso que as pessoas, principalmente aquelas que ocupam papéis de poder, têm muito medo de quem é imaginativo, de quem olha para as coisas com outros olhos.

Sempre me vi como um contador de histórias, nunca me imaginei a fazer outra coisa. Houve um momento em que pensei fazer um curso de realização de cinema, mas compreendi que se tratava de uma má ideia porque não tenho espírito de equipa e se me tivesse metido num curso desses iria ser um desastre. Formei-me em design gráfico porque a área tem afinidades com o desenho, mas não é um trabalho ao qual eu devote muito amor: acaba por depender muito da tecnologia e eu sou mais analógico que digital. Também passei pelo curso de ilustração do Ar.Co, como já te disse, mas embora guarde belas recordações dessas aulas percebi que essa área também não era aquilo que me agradava mais. O meu ofício é mesmo escrever e foi o amor pela narrativa que me levou à BD, desde os cinco anos de idade, porque ela é uma linguagem narrativa.

Tive sorte de crescer num núcleo familiar que valorizava a cultura e a criatividade. Quando era miúdo recebia sempre dois ou três livros de BD por dia, as minhas prendas sempre foram maioritariamente livros, mesmo nos anos e no Natal. Esse contacto permanente com histórias foi muito importante porque, mais tarde, quando comecei a formular aquilo que viria a ser a minha identidade autoral eu já tinha lido centenas de coisas.


DC: Por ordem mais ou menos cronológica fizeste várias BDs (Cidade Túmulo, Burroughs), um ensaio sobre BD, passaste para os contos (Os Ossos do Arco-Íris) e agora ao romance (A Conspiração dos Antepassados). Nota-se uma certa progressão nos tipos de escrita que abordas: BD, ensaio, contos, romance. As antigas experiências foram somente isso, experiências numa constante evolução da escrita, ou estás a pensar voltar “atrás”?
DS:
Não foram experiências, como é óbvio, se bem que cada trabalho possua sempre alguma coisa de experimental. Penso que os meus livros envelheceram bem e isso advém de se concentrarem em temáticas que dificilmente se deixam datar. Essa foi sempre uma preocupação minha: fazer coisas que me agradassem tanto no momento da realização como durante as releituras. É claro que existe sempre uma evolução da voz autoral, um refinamento. Se ela não existisse, estaria, certamente, a fazer algo errado. Se entendes que o “voltar atrás” seja um regresso à banda desenhada, tenho de dizer que não vai haver regresso nenhum porque nunca a abandonei. Simplesmente, neste momento, não tenho vontade de desenhar, mas continuo a escrever banda desenhada.

Na minha opinião, fazer um álbum de banda desenhada é mais trabalhoso que escrever um romance porque além de escrever a história ainda é preciso desenhá-la. Quem é autor de banda desenhada sabe muito bem o trabalho que dá fazer um álbum, compor as pranchas. Para o efeito é preciso uma grande habilidade em contar histórias, uma capacidade de síntese que se aproxima mais da poesia que do cinema. Também é preciso ter uma cultura gráfica apurada. Quem quiser ser um bom autor de banda desenhada precisa de trabalhar muito.

A arte do romance também é exigente: em primeiro lugar, o autor precisa aprender a dilatar o espaço mental para englobar galerias de personagens e situações diversas. Há dois anos foi editado um romance de um autor norte-americano que escreve em francês e vive em Barcelona: Les Bienveillantes; publicado o ano passado pela Dom Quixote com o título As Benevolentes. Trata-se de um livro que deixou toda a gente surpreendida porque tem quase mil páginas em letra miudinha. É que nesta altura já ninguém escreve assim a não ser um ou outro autor de culto como o Thomas Pynchon: os romances dos novos autores raramente ultrapassam as sessenta mil palavras. As reacções que este livro de Jonathan Littell provocou, da surpresa à ofensa, são reveladoras do modo como olhamos para os livros e para a cultura. Não estou a querer passar a mensagem que só os livros volumosos é que são bons, apenas sublinhar que é uma pena esperar-se pouco dos escritores – e dos restantes artistas – e acusar aqueles que vão mais longe que a média de buscarem protagonismo.


DC: Numa altura em que os romances históricos estão muito na moda, o que distingue “A Conspiração dos Antepassados” dos outros títulos semelhantes que preenchem as livrarias nacionais?
DS:
O facto de não ser um romance histórico. O tom dominante da narrativa é o horror e o fantástico. Repara que os leitores querem sempre catalogar novidades com o que já conhecem e, demasiadas vezes, aquilo que conhecem é o que vêem anunciado na comunicação social que apenas lhes fala do que é, imediatamente, mediático ou do que é veiculado por figuras públicas, logo reconhecíveis. A Conspiração dos Antepassados é tanto um romance histórico como o são os livros The Anubis Gates de Tim Powers, O Nome da Rosa de Umberto Eco, Argento-Vivo de Neal Stephenson ou A Voz do Fogo de Alan Moore. Nunca compreendi a designação de romance histórico, principalmente quando é agitada como pejorativa. Nunca li, em lado nenhum, uma justificação para o preconceito. Talvez ele tenha nascido desde que O Código Da Vinci de Dan Brown se tornou um enorme sucesso comercial, mas, se assim é, trata-se de um preconceito que ainda cheira a leite. Como, então, falar de livros como Gente Independente de Halldór Laxness, Tudo o Vento Levou de Margaret Mitchell, A Luz em Agosto de William Faulkner, Memorial do Convento de José Saramago, Eurico, o Presbítero de Alexandre Herculano ou Criação de Gore Vidal, que também inscrevem a diegese num enredo histórico. Enfim, qualquer livro se integra num determinado período da história das civilizações, seja passado, presente ou futuro, mas é o tom dominante das narrativas que os inclina para um género particular em prejuízo de outros. Nessa óptica, entendo que as histórias possam ser dramas, aventuras, contos de horror ou de ficção científica, até viagens de reflexão autobiográfica, mas não compreendo a designação de romance histórico porque o período histórico de um livro não é nenhum género ou modo: é um panorama, um cenário. Ao fim e ao cabo aquilo que novos autores como Dan Brown, Bernard Knight, C. J. Sansom e muitos outros estão a fazer é o mesmo que a Ellis Peters e o Umberto Eco já fizeram: usar a estrutura do romance policial, ou gótico, e criar um ambiente mais cinemático que gira em torno de ameaças tecnológicas ou envolva sociedades secretas. Aliás, o C. J. Sansom tem muitos pontos em comum com o Eco e a Peters. Todas essas histórias são, em essência, romances policiais: alguém morreu, alguém roubou alguma coisa e alguém vai descobrir o que se passou. São whodunits, histórias policiais.

Penso que o preconceito em torno das designações e dos géneros, que acusa até falta de imaginação e cultura literária da parte que de quem o promove, acaba por impedir que os leitores se divirtam com os livros. É claro que será mais enriquecedor ler Umberto Eco ou William Boyd que Dan Brown, mas os livros escritos por figuras públicas alheias ao universo da literatura, essas coisas indescritíveis (as biografias de jogadores de futebol, as versões em livro de programas televisivos e as crónicas de quem caiu em graça em vez de ser engraçado) fazem muito mais mal aos leitores e ao mercado que todos os romances que Dan Brown já publicou.

As críticas, e os comentários dos leitores, que me chegaram às mãos sobre A Conspiração dos Antepassados têm sido excelentes e o livro está a vender muito bem, conseguindo alcançar a segunda edição em pouco mais de um mês. Avaliando que conheceu pouquíssima divulgação nos jornais e na televisão é uma vitória ainda mais saborosa. Consiste numa história sobre as vidas de Fernando Pessoa, Aleister Crowley e o modo como elas se cruzam em Lisboa numa busca pelo destino de Dom Sebastião. É um romance cujo mito fundador é partilhado por toda a cultura ocidental, o arquétipo do Rei Encoberto, ou Adormecido. As imagens e preocupações continuam a ser as mesmas que tenho vindo a desenvolver em livros anteriores: o horror, o oculto, a história. Nesse sentido A Conspiração dos Antepassados é o seguimento de uma filosofia autoral, do mesmo modo que o foram A Última Grande Sala de Cinema ou Os Ossos do Arco-Íris. Sempre escrevi sobre os meus temas mais queridos em proporções contrabalançadas de verdade histórica e ficção fantástica, às vezes a primeira é maior que a segunda, como no conto O Elefante e o Cavalo, e às vezes é menor.

Para a realização d’A Conspiração dos Antepassados baseei-me nas melhores biografias disponíveis sobre as personagens principais e posso assegurar que tudo o que diz respeito a factos é verdadeiro, apenas se encontram encaixados num contexto fictício. As personalidades de Pessoa e Crowley que podem ler no romance estão, a meu ver, tratadas de uma maneira que se aproxima, com certeza, das personalidades que ambos devem ter tido; existem muitos diálogos entre eles, e com outros protagonistas, que são reais e que eu desloquei para as exposições descritas no livro. As descrições da Lisboa dos anos vinte e trinta, assim como as outras cidades por onde toda a acção é espraiada, seguem a esteira de fotografias e mapas dessa altura. É o resultado de um trabalho de pesquisa e recolha de informação que me durou quatro anos, desde que havia planeado fazer duas biografias distintas sobre Fernando Pessoa e Aleister Crowley. Consciente do encontro entre eles que ocorreu em Lisboa em 1930 sempre achei que a situação poderia ser a base para uma grande história. O trabalho do artista renascentista português Francisco D’Ollanda deu-me as pistas fundamentais para unir os destinos do poeta e do mago de um modo que não só me permitia a inclusão de uma tradição mítica portuguesa como ainda desenvolver uma história que comunicasse com mitologias de outras culturas.

Por tudo isso, e voltando à tua pergunta, não acho que existam outros livros de autores portugueses semelhantes a este nas livrarias. É uma aventura de horror sobre Fernando Pessoa, sobre Aleister Crowley. É uma história de horror sobre Lisboa. E isso é algo que não se vê todos os dias.


DC: É possível que "A Conspiração dos Antepassados" vá ter uma sequela?
DS:
Não. Todos os meus trabalhos partilham temas, mas não faço sequelas para os meus trabalhos.


DC: É claramente visível para quem lê a tua obra que és conhecedor das ciências exactas, e de tudo ligado ao sobrenatural e simbolismo da cabala, maçonaria, etc. De onde veio tanto conhecimento que parece estar ao nível de especialistas e estudiosos na matéria?
DS:
Da leitura sem preconceitos desses temas. O meu interesse pelo oculto e pela ciência remota à infância e ao gosto pelo género do horror e do fantástico. Mais tarde vim a perceber que não só quase todos os ilustres cientistas da história nutriram grande interesse pelas disciplinas herméticas, como os ocultistas mais rigorosos se aproximaram muito perto de teorias científicas actuais, apesar da linguagem com que escreveram os trabalhos que nos deixaram ser aquela que tinham à disposição na altura: a numerológica, a astrológica, a panegírica. Sempre existiram mentes brilhantes que olharam o mundo e intuíram conceitos que se aproximaram da física. E o inverso, cientistas que procuraram a sabedoria oculta, também é verdadeiro. O Arthur C. Clarke escreveu que toda a tecnologia de ponta atravessa um momento em que é observada como Magia (a famosa terceira «Lei de Clarke»).

O Aleister Crowley definiu a Magia como sendo a «ciência de mudar o mundo consoante a vontade». É um axioma ateísta, no fundo, porque não se suporta na mecânica de agentes sobrenaturais, como espíritos ou demónios, mas em relações de causa e efeito provocadas por actos físicos, realizados pelo indivíduo. Tratou-se de uma ideia revolucionária no que diz respeito a pensar sobre a Magia e continua a ser aceite pelos ocultistas modernos como a definição mais apurada. Por exemplo, a evolução das espécies através do processo da selecção natural, que é um poderoso algoritmo que tanto serve para estudar a biodiversidade como o nascimento das estrelas no universo, encontra um reflexo esotérico nos textos hinduístas que compõem o Rig Veda, traduzidos para inglês por Friedrich Max Muller, amigo íntimo de Darwin: são textos que narram a evolução humana desde a criação da matéria por Brahma, o lado luminoso da mente de Vishnu (o lado negro é Shiva) até o surgimento de uma espécie de criatura marinha que passa por formas reptilianas e simiescas antes de se cifrar na humana. Ou seja: existiu alguém que no passado intuiu o mesmo que Darwin comprovou no século XIX, mas, por culpa da ignorância da biologia, que Darwin instrumentalizava com mestria, usou a linguagem do mito para transmitir a ideia porque era aquilo que estava à mão. Esta ideia da criação da matéria pela mente, ou a Emanação, que é um argumento basilar em todas as tradições herméticas, ressoa nas palavras «Eu penso, logo existo» do filósofo René Descartes: em primeiro lugar nasce o pensamento e depois a existência, a matéria; é um conceito que não é de todo estranho no raciocínio de Descartes que, sem ser ocultista, conhecia diversos rosicrúcios e deve, de certeza, ter sido inspirado por eles.

Eu sou ateu, não acredito no espírito e considero que a religião é um veneno, mas isso não me rouba entusiasmo pelo estudo das disciplinas herméticas porque, em suma, acredito que os ocultistas e os cientistas procuraram o mesmo: a verdade sobre o mundo; sob orientações e linguagens diferentes, mas com conclusões parecidas.

É útil reter que quando falo em ocultistas refiro-me a nomes como Jacob Boehme, Pico della Mirandola ou Robert Fludd e não aos vulgares astrólogos de jornal, cartomantes ou “Professores Karambas”. Falar dos dois conjuntos no mesmo contexto seria como acreditar que o Diabo, na tentativa de tomar posse do mundo, escolheu aliar-se aos músicos de Black Metal em vez dos políticos e dos empresários das multinacionais.


DC: O que pensas do panorama bedéfilo nacional?
DS:
Acho que neste momento existe algo que não existia há uns anos: uma comunidade forte de artistas underground e alternativos que publicam trabalhos interessantes de um modo regular e profissional. Os livros e fanzines publicados pela MMMNNNRRRG, Imprensa Canalha e Opuntia Books são belos exemplos disso. A Kingpin of Comics é uma referência de peso na edição de comics portugueses de qualidade. A El Pep possui títulos com valores de produção muito bons. Existem diferentes espaços onde os artistas podem intervir e mostrar os trabalhos de um modo que escapa às convenções habituais, o que oxigena as estéticas. Quanto ao mainstream (se é que faz sentido falar de mainstream e underground na BD portuguesa… talvez faça) penso que a edição de autores portugueses morreu.

O surgimento de um ou dois títulos anuais durante o FIBDA não é vida. Existem vários problemas que concorrem para que isso aconteça, mas um dos principais é a falta de novos artistas com propostas originais. Excepto o álbum de Ricardo Cabral, sobre o alpinista João Garcia, não apareceu nada vindo de novos autores. Infelizmente, nesta altura em que quase nenhum álbum português é publicado é que temos um periódico regular que se devota à divulgação e crítica de banda desenhada: o BD Jornal. É um esforço que nunca é demais louvar: possui artigos de qualidade e oferece oportunidade aos aspirantes a autores de mostrarem o que valem. Vale a pena falar no álbum do Rui Lacas, publicado em francês e só depois em português, mas isso também não é uma situação inédita. Penso que aquilo que define melhor o actual panorama bedéfilo nacional é uma exaustão completa da publicação em álbum, pelas vias tradicionais, e o emergir de um underground coeso, cheio de gente interessante, que vê a BD com olhos interdisciplinares e sem complexos.

É com alguma pena que imagino que a BD se pode estar a tornar numa arte moribunda, porque os candidatos a novos autores não possuem uma cultura de banda desenhada, não estão familiarizados com ela: a BD, e pela medida grande a leitura, não faz parte dos seus horizontes. Não penso que se trata de um pensamento miserabilista, porque as coisas são mesmo assim: as artes, como as tradições, deixam de fazer sentido para determinadas gerações. Ficamos tristes quando uma coisa que gostamos desaparece, mas temos de saber viver com isso. Às vezes a coisa nem desaparece: é absorvida por outra ou transforma-se. Isto cruza-se com aquilo que discorri sobre o romance de Jonathan Littell, uns momentos atrás: a arte do romance, como era entendida há uns anos, também é uma arte moribunda. Se não o fosse como explicar a surpresa da imprensa especializada (ainda por cima!) diante da publicação de um volume imenso como As Benevolentes. Vamos ser sinceros: hoje em dia quais são os leitores que têm tempo, paciência e bagagem cultural para se aventurarem numa leitura desse género a não ser os mais resistentes e meia-dúzia de teimosos habituados a ler os clássicos? É uma pena, mas existem demasiadas coisas a roubar o tempo que dantes era dedicado à leitura. Nós lemos pouquíssimo e cada vez mais estamos habituados à brevidade, ao resumo. Os jornais não trazem notícias: trazem sinopses. Estamos a ficar fora de forma para ler. Seria de esperar que a ficção curta, como as barrinhas de cereais, fosse do agrado do público, mas a verdade é que os livros de contos se vendem muito mal. É uma loucura: qual é, afinal de contas, a medida certa para um livro?

Contudo, acho que o livro não vai desaparecer. Penso que a imprensa impressa, essa sim, tem os dias contados: os jornais são cadáveres que persistem teimosamente nos quiosques. Daqui a três ou quatro anos, à semelhança da televisão, todos os jornais serão digitais e a Internet vai perder a aura de serviço público que ainda impossibilita o negócio das assinaturas online de revistas e jornais. O livro continuará a ser impresso e poderá ganhar um novo estatuto de veículo de informação especializada, ou alternativa, para servir de contraponto à imprensa digital. Como fazem hoje as revistas underground. Será um período interessante, sem dúvida.


DC: Sei que tens vários argumentos para BDs na gaveta e sem ninguém para os desenhar. Isto confirma a ideia que são poucos a aventurarem-se na Banda Desenhada e ainda menos a produzirem?
DS:
Existe um problema com os desenhadores portugueses de BD que é o seguinte: na maioria das vezes estão mais interessados em desenhar o que lhes prende a atenção e o gosto, em determinado momento, que em contar uma história e comunicar com o leitor. Ou seja, pensam algo dentro destes moldes: «Hummm, agora apetece-me desenhar isto» ou «Não seria porreiro se eu desenhasse isto com aquilo?». Não há nada de errado, em síntese, com esta abordagem. Somente não fiquem à espera que possam surgir grandes histórias trabalhando dessa forma... Também não existem muitos desenhadores que saibam ou sejam capazes de trabalhar em equipa com um argumentista. A maioria pensa mesmo que é capaz de imaginar uma boa história sozinha... Alguns também não gostam muito de ler, o que torna impossível a apreciação e análise de um argumento. A situação normal na BD portuguesa é que quem a faz chegou a ela pelo desenho e não pelo impulso de contar uma história. Sendo assim é natural que a tónica seja colocada, tanto pelos criadores como pelos leitores, no papel do artista em prejuízo do argumentista. É uma visão da BD que é aceite e divulgada até por quem tem, ou tinha, responsabilidade de saber mais que isso. Falo da minha própria experiência de contactos com diversos artistas portugueses, com os quais tentei formar uma equipa, por isso não me venham dizer que as coisas não se passam assim: as coisas passam-se mesmo assim. Felizmente, começam a aparecer desenhadores que têm outra ética de trabalho e os comics publicados pela Kingpin of Comics são um excelente exemplo do que é possível fazer quando os argumentistas e os desenhadores trabalham em conjunto.


DC: O que é que costumas ler em banda desenhada? De literatura dita normal penso que seja escusado perguntar pois é visível para quem visita o teu blog cadernosdedaath.blogspot.com
DS:
Eu leio pouquíssima BD porque as histórias que procuro não são contadas nessa linguagem. Também leio muitos títulos que não são ficção e por aí está visto que a escolha não pode cair mesmo na BD. Continuo a acompanhar o que se produz e a ler os álbuns dos meus autores preferidos, mas não leio tanta banda desenhada como lia há uns anos atrás. Mas já lia pouquíssima no período em que desenhava, por isso não é uma situação nova nem se trata de uma postura elitista. Simplesmente as histórias e as matérias que procuro não se encontram no campo da banda desenhada.


DC: Que títulos e autores são esses que ainda te prendem à Banda Desenhada?
DS:
Meia-dúzia de autores que eu gosto, mais argumentistas que desenhadores. Ted McKeever, Grant Morrison, Alan Moore, Jodorowsky. E poucos mais. Como te disse, apesar de adorar BD, não leio quase nada de BD.


DC: A Círculo de Abuso irá regressar algum dia com um álbum de BD novo da tua autoria?
DS:
Nunca se sabe. Se voltar a minha vontade de desenhar, porque não?


DC: Para quem se quer dedicar à escrita, tens algum conselho?
DS:
Leiam muito. Ouçam música. Saiam de casa para olhar as pessoas e vão ao cinema. Sobretudo, leiam mesmo muita coisa para aprender como se esgrima com as palavras e para evitar ter ideias que já foram publicadas. Eu acho que os cursos de escrita são todos uma trampa, mas até pode ser que funcionem para algumas pessoas que, de outro modo, teriam alguma dificuldade em se soltar sozinhas. Às vezes é preciso ajuda exterior para soltar a mão, como nas aulas de desenho e de pintura. O problema é que um escritor não precisa de aprender a soltar a mão: precisa de aprender a soltar a cabeça, e aí não há meio-termo. Cada um tem de saber fazê-lo sozinho. A verdade é esta: se não dedicares tempo à leitura nunca irás aprender a escrever. É como querer emagrecer sem fazer exercício.

Para ser escritor é necessário gostar de livros, gostar de ver livros nas estantes e de ouvir palavras. É preciso gostar bastante de histórias; e ser infantil, acredita, ajuda muito. Eu sou infantil que me farto e não sou a melhor pessoa do mundo para cuidar de assuntos práticos. Estou sempre a pensar no que estou a ler ou nas histórias que vou contar a seguir. O meu conselho é mesmo esse: leiam muito. Leiam tudo o que conseguirem apanhar. E depois comecem a escrever. Se não for assim não vale a pena. Mais vale desistir agora e poupar dinheiro.


DC: Por último, alguma mensagem para os nossos leitores?
DS:
Leiam boa banda desenhada. Divirtam-se.

12 January 2008

Brevemente

Um brinde a Bolonha que me deixa sem tempo para nada!

Ainda assim, no meio do estudo, consegui uma entrevista ao David Soares que, brevemente, estará disponível na Centralcomics e depois aqui.

A entrevista devia ter sido mais virada para a BD mas o facto do David estar mais virado para romances e contos ultimamente, impediu um pouco isso.
Não deixa de ser uma boa leitura (tanto o recente romance como a entrevista).